Motociclistas, grupo de risco


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Um dos argumentos morais que ainda sustentam o comércio de revólveres é o de que a arma não mata. Por si só é uma engenhoca inofensiva. Quem mata é o sujeito ativo, aquele que raciocina, e que por isso deve responder pelos seus atos

Feito o estrago, procura-se saber se agiu criminosamente ou em legítima defesa. A responsabilidade nunca será do invento, nem do inventor (ou fabricante), mas de quem acionou o gatilho. A mesma lógica se aplica em relação ao trânsito. Não é o automóvel o assassino. Os fatores principais da mortandade são as condições adversas e acidentais nas ruas e estradas e a negligência dos motoristas. E o que dizer das motos? São elas, seguindo a mesma linha, belas máquinas neutras. Quem mata, ou se mata, é o condutor.

Tudo isso, porém, serve apenas para exaltar a soberania da existência humana no plano filosófico. Na prática, há novidades. Os motoqueiros já constituem um grupo de risco na sociedade. A qualquer momento, um deles pode ser agente ativo ou vítima de uma guerra silenciosa. O preço disso é enorme, quase todos os dias, em nossas cidades.

É crescente para a sociedade o custo social do raciocínio complacente em relação à onipotência das invenções de duas ou quatro rodas. Os casos mais graves que dão entrada nos pronto-socorros têm origem na velocidade e disputa de espaços urbanos, e na maioria dos casos, motociclistas. Dessa forma, nossas cidades estão sendo palco de uma violenta carnificina. Acidentes de avião podem provocar dezenas de mortes e ganham destaque na imprensa internacional. Mas não se dá o mesmo com o tombo de um motociclista. Quando ocorre, é visto quase sempre sob o prisma da fatalidade. E os números vão engrossando na mesma proporção da dor de famílias e amigos.

Chegou a hora de uma ampla e eficaz mobilização envolvendo o poder público, a comunidade e, inclusive, os fabricantes de motocicletas, para aumentar a segurança desse perigosíssimo meio de transporte e poupar vidas jovens.

Números
Levantamento do Seguro de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre (DPVAT) mostra que em 10 anos – de 2000 a 2010 – a quantidade de óbitos envolvendo motociclistas aumentou 64% no País. Durante o período, a frota deste tipo de transporte cresceu 315,8%. Mais trágico ainda foi o crescimento dos casos de invalidez permanente, um aumento de 274% durante a década. Só na capital paulista, 478 motoqueiros morreram ao longo de 2010, mais de um por dia, o que representou aumento de 11% em relação ao ano anterior.

Ações
Algumas medidas sugeridas por especialistas para conter os índices de acidentes com motos: 1) ampla campanha de conscientização em empresas, nas ruas e eventos; 2) restrição e fiscalização de velocidade em avenidas onde é alta a incidência de acidentes; 3) mudanças estruturais em vias com a criação de faixas exclusivas e melhorias na sinalização; 4) formação mais consistente dos motociclistas na fase de habilitação; 5) reeducação periódica; 6) engajamento dos meios de comunicação visando a conscientização.

Motoboy
Desde 4 de agosto, entraram em vigor novos requisitos mínimos de segurança para mototáxi e motofrete (motoboy). O condutor terá prazo de 365 dias para se adequar às exigências. As motocicletas usadas para fins profissionais e os condutores deverão providenciar antena aparadora de linha com cerol, para proteger braço, pescoço e tórax do motociclista; e proteção para as pernas em caso de uma queda ou de acidente. O texto da resolução proíbe ao motofrete transportar combustíveis, produtos inflamáveis ou tóxicos, com exceção de gás de cozinha e de galões de água mineral, desde que com o auxilio de dispositivo anexado à moto, especial para este tipo de transporte.

Insegurança em postos
O sindicato dos frentistas em Sorocaba informa que, em 2010, foram registrados 77 roubos em postos de gasolina da cidade. “Se o frentista não tem dinheiro, pode até ser assassinado”, diz a presidente do Sindicato dos Empregados em Postos de Serviços de Combustíveis e Derivados de Sorocaba, Sueli Conceição Camargo. “Temos casos de frentistas que desenvolveram síndrome do pânico e saem correndo quando avistam uma moto chegando ao estabelecimento”. É só um exemplo. A situação é a mesma em todo o Interior Paulista.

Falta aplicar a lei
Lei municipal em Piracicaba prevê multas de até R$ 4.5o0 para estabelecimentos comerciais que venderem bebidas alcoólicas para menores de 18 anos. O comércio tem que exibir cartazes alertando sobre os riscos da ingestão do álcool. O material ainda está sendo confeccionado pela Acip (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba) e deverá ser distribuído a partir desta semana.

Wilson Marini
Jornalista – wmarini@apj.inf.br

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