Um sentimento bom me invade quando leio algum autor que escreve coisas de que já falei de um jeito diferente mas com o mesmo espírito. Acho que acontece com todo mundo que gosta de ler e escrever. Quando ocorre esse processo de identificação, vem à tona a certeza de que o caminho que trilhamos não é estranho a outros. As afinidades são confortadoras, sopram ao nosso ouvido que não estamos sós no mundo ou que alguém compartilha conosco alguma ideia, conceito, afeto ou mesmo impertinência.
Reflito sobre isso ao ler no livro de contos O fio das missangas, de Mia Couto, ficcionista moçambicano com forte influência de Guimarães Rosa, ídolo confesso, o trecho que transcrevo a seguir. “Cozinhar é o mais privado e arriscado acto. No alimento se colocam ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. Cozinhar não é serviço. Cozinhar é um modo de amar os outros”. São frases muito reveladoras.
E cozinhar o básico, aquele prato que por hábito, contingência ou gosto deve estar na mesa todos os dias, pede além de ca-rinho, criatividade. Fazer a mesma comida pode dar origem a uma sensação de tédio, em tudo contrária à vontade de mostrar algo fresco e bom, reno-vado apesar de conhecido. O arroz, por exemplo, tão presente em nossa dieta, e combinado ao feijão, item básico do cardápio da maioria dos brasileiros, composição de que sentimos falta se viajamos para outras terras. Quando retornamos, depois de algumas semanas, o que que-remos comer de imediato senão um prato de arroz e feijão?
Hoje vamos nos ater ao arroz, cereal que vem alimentando a humanidade há milênios. Há centenas de variedades no mundo, do preto ao vermelho, do bomba ao vialone, passando por nomes que perfilam os tipos. Dados do Instituto Internacional de Pesquisa em Arroz nos informam haver mais de 120 mil variedades de grãos.
No Brasil gostamos do agulhinha e do cateto, que podem ser usados na receita que ilustra a página, embora tenha-mos empregado o jasmim, que é muito apreciado na cozinha asiática, combinado com leite de coco. Tem um cheiro bom da flor homônima, daí o nome, e na ela-boração que estamos propondo, combinou-se com atum (de lata!) e crocante de amêndoas (substituíveis por castanhas). O efeito visual é bonito e a mistura dos ingredientes, com sabores e texturas distintas, resulta num prato muito gostoso.
Se quiser experimentar, comece tostando as lascas de amêndoas em fogo baixo por 10 minutos ou até que fiquem douradas e crocantes. Reserve. Ferva um litro e meio de água com sal, adicione o arroz e cozinhe em fogo forte por 10 mi-nutos, com a panela destampada. Findo este tempo, contado no relógio, escorra o arroz em peneira, coloque de volta na pa-nela, tampe. Deixe abafado por 5 minutos. Enquanto isso, derreta a manteiga, junte as amêndoas e o atum em lascas. Quando estiver bem aquecido, desligue o fogo. Para montar, coloque o arroz no interior de um aro (recortei o fundo de uma vasilha descartável de plástico e usei como forma) e complete com a mistura de atum e amêndoas. Decore com cebolinha picada e sirva com ervilhas tortas salteadas no azeite.
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