Um dos maiores desafios das cidades é como combater a circulação das drogas, prevenir o vício e tratar os dependentes químicos
Sozinhas na tarefa, autoridades locais, educadores e famílias envolvidas dificilmente conseguem êxito sem apoios externos, mobilização da comunidade e ações governamentais. A droga não é apenas caso de polícia. É um flagelo que exige a ação de toda a sociedade. Isso porque o tráfico sabe como criar suas teias e tirar vantagem da globalização. O mundo das drogas não tem fronteiras e horário para funcionar, não sofre a falta de mão-de-obra, não depende de voluntários nem de investimentos do governo e não carece de matéria-prima e clientes. Por sua vez, a articulação para enfrentar as causas e efeitos gerados pelas drogas é mais complexa, porque se sustenta no voluntariado, na definição de políticas públicas, na educação, na saúde e na conscientização da população.
Porisso, o enfrentamento dos problemas gerados pelo crack em nossas cidades exige articulação inteligente em rede. Para vencer as causas e efeitos gerados pelas drogas, a rede do bem é mais complexa e lenta, porque se sustenta no voluntariado, na definição de políticas públicas muitas vezes demoradas e ineficazes, na educação, na saúde e na conscientização da população. O governo federal, com o apoio dos estados e municípios, já poderia ter liderado iniciativa nacional sobre o tema. Mas demorou a acordar para o problema, o que está fazendo um pouco mais explicitamente apenas a partir deste governo Dilma, e com resultados ainda incipientes.
Iniciativa
Uma tentativa nesse sentido foi posta em prática em âmbito nacional pelo Observatório do Crack, mantido pela CNM (Confederação Nacional dos Municípios). Esta semana, teve início o processo de cadastramento das prefeituras para acesso ao portal Observatório do Crack. Para se ter ideia da demanda sobre ao assunto, só na terça-feira, primeiro dia para a adesão, 412 municípios registraram sua inscrição formal no site. A CNM tem apelado para que as prefeituras participem mais. As informações relatadas pelos municípios durante a pesquisa “O Crack nos Municípios Brasileiros”, realizada em 2010, já estão disponíveis no portal. Com login e senha, o gestor poderá incluir informações e atualizá-las. Segundo a entidade, novas perguntas foram incluídas, formando um terceiro questionário on-line e, por meio delas, informações mais completas sobre a realidade local devem ser obtidas. O objetivo é dar continuidade ao processo de estruturação dos dados municipais no que diz respeito às drogas ilícitas.
Pesquisa
Na pesquisa de 2010, ficou comprovada, segundo a entidade, a presença da droga em 98% dos municípios brasileiros. Diante disso, a CNM criou um portal que junta informações sobre prevenção, atendimento, tratamento, reinserção social e profissional e repressão ao tráfico. “Nosso intuito é estimular e orientar os municípios para realização de ações de prevenção e de recuperação a usuários de substâncias ilícitas”, afirma o presidente da entidade, Paulo Ziulkoski.
Esforço concentrado
Em Bauru, a prefeitura anunciou que pretende implantar ainda em 2011 o Centro de Atenção Psicosocial 24h (Caps-AD) onde o adolescente poderá se alojar por até uma semana para tratamento. O município concluiu que o maior problema do atendimento do Caps era o horário. As famílias não conseguiam trazer seus filhos, devido ao trabalho dos pais. “Agimos de forma preventiva nas escolas e na comunidade, com campanhas e palestras. Usamos todas nossas armas”, diz o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB).
O crack e outras drogas se alastram em Bauru e criam problemas não só na saúde, mas no aumento da criminalidade. O prefeito desabafa que é caro manter todos esses serviços de saúde: “Gastamos quase 25% em Saúde, mesmo sabendo que só podemos gastar 15%. Mas vamos fazer o quê? É preciso atender a população”, diz. O secretário de saúde, Fernando Monti, diz que a internação compulsória é polêmica, pois a família quer forçar o tratamento, “mas se o usuário não aceitar, não adianta”. E a situação se complica ainda mais quando as famílias também estão envolvidas com a droga. Segundo ele, os adolescentes usuários de droga envolvidos com a criminalidade às vezes não estão sozinhos. “Algumas famílias também estão envolvidas com a venda ilegal de drogas. A gente fala que a concorrência é desleal. Nesses casos, o que temos para oferecer é pouco”, lamenta.
Debate
Araraquara se mobilizou para a discussão sobre as drogas, ao programar o I Seminário de Enfrentamento ao Crack e demais drogas de Araraquara e Região, na sexta-feira. Segundo o Conselho Municipal Antidrogas, é preciso sensibilizar e conscientizar a todos quanto à problemática das drogas na região. A polícia instalou câmeras filmadoras em um praça da cidade para investigar o tráfico e consumo de drogas e a medida reduziu o uso de drogas. Em julho, evento semelhante foi promovido na Câmara Municipal de Mauá, na Grande São Paulo. Como esses, outros encontros deveriam ser promovidos nas principais cidades do Interior Paulista.
Wilson Marini
Jornalista – wmarini@apj.inf.br
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