Quem passa pelo local e olha aquele esqueleto de concreto tomado pelo mato não imagina o que acontece no interior. As ruínas do prédio inacabado diante da antiga sede da Unimed, no Bairro São José, servem de moradia e abrigam as esperanças de um cantor sertanejo que sonha em melhorar de vida com a música. Talento, não falta. As oportunidades ainda são escassas. A gravação de um CD parece um desafio distante de ser alcançado. Mas desânimo é uma palavra que não existe em seu repertório. Enquanto o reconhecimento não vem, ele enfrenta com bom humor as dificuldades e a dura realidade para seguir cantando ao lado do companheiro.
Paulo Donizete Gonçalves, 54, nasceu com o dom de cantar. O ritmo sertanejo é o seu forte. Há mais de 30 anos percorre a região para animar festas diversas. Chegou a se apresentar com Gian e Giovani e Rionegro e Solimões antes deles se tornarem famosos. Para ele, o sucesso não chegou. Formou as duplas Paulo César e Zé de Deus e Paulo César e Cristiano. Nenhuma vingou.
Há cinco anos, mudou o nome artístico. Virou Paulo Ramalho e passou a cantar com o parceiro Gabriel. Fazem uma média de quatro shows por mês. A música é e sempre foi um bico.
HISTÓRIA
Paulo era sapateiro. Depois de se cansar das fábricas, virou serralheiro, profissão que exerce atualmente. Dinheiro que é bom, nada. A grana que ganhou não foi suficiente para comprar a casa própria.
Paulo é conhecido dos donos do prédio abandonado no Bairro São José, onde seria construída uma fábrica. Há cerca de dez anos, pediu para morar no local. Em troca, cuidaria do imóvel. O acordo foi feito. Desde então, Paulo, a mulher Silvia e o filho Bruno, de 16 anos, vivem no subsolo do esqueleto. A casa foi improvisada na área prevista para ser os escritórios da fábrica. São dois quartos, sala e cozinha. O banheiro fica do lado de fora. Há luz e água encanada. A serralheria foi montada no galpão. Há poucos dias, ganharam companhia. Um cachorra sem raça definida entrou na garagem e deu cria. Nasceram sete filhotes ainda em fase de amamentação. Interessados em adotá-los são bem vindos.
As condições da moradia não são as melhores. Ter o prédio abandonado como endereço chega a causar espanto, mas o cantor não esconde a realidade que vive. Constrangimentos, no entanto, são inevitáveis. “Há um certo preconceito por partes da pessoas de fora. Levamos uma vida digna e honesta, mas elas olham para gente de um jeito diferente”.
Paulo Ramalho trabalha durante a semana na serralheria. Aos sábados e domingos, percorre a região para animar festas de aniversário e churrascos ao lado do amigo Gabriel. Chegam a cantar por cinco horas. Recebem em média R$ 200. “Rapaz, o cachê é bravo. É uma coisa simbólica, que mal dá para pagar as despesas, mas cantamos por prazer com o objetivo de mostrar nosso trabalho. Quem quiser contratar a gente, é só ligar que a gente vai com o maior carinho”. O telefone para contato é 9139-0102.
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