João Marcos Rodrigues, 66, gosta de contar para os amigos como estreou na política. No começo da década de 50, quando ainda era um menino de dez anos, fez panfletagem para Jânio Quadros nas eleições para o governo do Estado. Na mesma época, pediu votos para Onofre Gosuen que se elegeu prefeito de Franca. Tomou gosto pela coisa e soma mais de meio século de militância. Nunca ocupou cargos eletivos. Foi apenas uma tentativa frustada para vereador. A atuação nos bastidores é o seu forte.
O “Alemão” integra o seleto grupo de amigos de Sidnei Rocha (PSDB). É homem de confiança do prefeito. Fez parte das três administrações do companheiro de longa data. Atualmente, é o presidente da Emdef (Empresa Municipal para o Desenvolvimento de Franca). Se orgulha em dizer que pegou a empresa quebrada e que a colocou em situação rentável. “Temos aplicações na ordem de R$ 4 milhões”.
No período que sucedeu a campanha eleitoral de 2008, Sidnei Rocha estava brigado com o deputado Roberto Engler e não tinha a certeza de que o PSDB lhe daria a legenda para disputar a reeleição. Na dúvida, decidiu montar um partido para servir de abrigo caso as portas do ninho tucano fossem fechadas para ele. A legenda escolhida foi o PP. João Marcos foi indicado como presidente e teve o desafio de estruturar o partido que estava desativado na cidade.
Sidnei Rocha se acertou com Engler e disputou as eleições pelo PSDB. Foi eleito no primeiro turno. Na corrida pela Câmara, o PP acabou sendo a surpresa e formou a maior bancada. Recebeu quase trinta mil votos e elegeu quatro vereadores. Entre eles, Graciela Ambrósio. Ela passou a fazer ferrenha oposição ao prefeito meses depois.
De nanico em extinção, o PP ganhou respeito no cenário político local. Parecia navegar em águas calmas para repetir o mesmo desempenho em 2012 e ajudar o prefeito a fazer o sucessor. O céu de brigadeiro não existe mais. No mês passado, o partido entrou em ebulição. Sem qualquer aviso, o diretório estadual destituiu toda a diretoria comandada por João Marcos. Graciela Ambrósio foi indicada como a nova presidente. De aliada do governo, a legenda se transformou em adversária do dia para noite.
O presidente deposto quebrou o silêncio. Nesta entrevista exclusiva ao Comércio, João Marcos falou sobre o golpe que levou após ter ressuscitado o PP em Franca. Para ele, a intervenção no partido teria sido consequência de uma manobra silenciosa arquitetada por Graciela Ambrósio. Disse ter sido traído por ela. Saiba porque.
Comércio - Como o senhor avalia a intervenção do diretório estadual que destituiu a executiva municipal do PP e nomeou nova diretoria?
João Marcos - São coisas que estão na lembrança do passado de origem. Há muito tempo estou no PP. Fui filiado ao PDS, que antecedeu ao PP. Adoro política, mas não sou político. A legenda é importante para dar legalidade, mas minha politica maior é trabalhar em prol da população. O que aconteceu foi uma traição. Eu fui traído violentamente. Meus amigos já haviam me delineado uma provável possibilidade deste fato acontecer, mas a gente ainda acredita na qualidade, na palavra das pessoas até a última hora. Foi uma decepção muito grande. Não por ter perdido o cargo de presidente, mas por ter acreditado na palavra de homens, dos quais os interesses pessoais estão acima da vontade do povo.
Comércio - O senhor tinha o compromisso do diretório estadual de que não haveria interferência em Franca?
João Marcos - Sim. Na abertura da Francal no fim de junho, minha mulher e eu nos reunimos com a secretária do partido em São Paulo. Nos foi dito que seríamos chamados, não só eu, mas também a nova presidente (Graciela), para fazer tratativas a respeito do futuro do PP. As decisões seriam tomadas em conjunto. Para minha surpresa, até hoje ainda não recebi nenhuma comunicação oficial de que fui destituído. Se limitaram apenas a colocar no site do partido o nome da atual presidente. Fui alijado da presidência como se eu fosse uma coisa qualquer, como se fosse uma bucha de laranja que você chupou, absorveu o líquido e jogou no cesto de lixo.
Comércio -O PP havia sido dissolvido em Franca e foi reestruturado em 2008 por pessoas ligadas ao prefeito. Foi a surpresa das eleições ao fazer quatro vereadores, a maior bancada da Câmara. Como foi o processo de montagem da legenda?
João Marcos - Em épocas passadas, o partido foi usado em Franca em campanhas políticas esdrúxulas. Política não é uma coisa para brincar, nem para fazer graça, chacota ou para ganhar dinheiro. A política é coisa séria, se decide a situação de um povo. Quando peguei o partido, ele vinha de duas campanhas políticas ridículas, ridículas mesmo (em 2004, o partido disputou as eleições sob o comando do radialista Rui Pieri, candidato a prefeito na época). Fomos lá, buscamos o partido e demos um novo tratamento. Não fiz nada sozinho. Foi um trabalho sério desenvolvido por vários amigos, fiéis companheiros, que estão juntos há 30 anos. O resultado foi muito expressivo: fizemos quatro vereadores e recebemos o maior número de votos. A ideia sempre foi trabalhar com a filosofia de deixar Franca mais feliz, melhor a cada dia. Temos pessoas maravilhosas e compromissadas com estes ideais dentro do partido mas, agora, elas estão sem norte. Não sabem o que vão fazer. No momento certo, vamos refletir e encontrar novos caminhos.
Comércio - O senhor disse que a intervenção foi uma traição. A vereadora Graciela Ambrósio, que assumiu a presidência em seu lugar, participou desta traição?
João Marcos - A Graciela, hoje, vive um bom momento político. Isto ninguém pode negar. Nenhum partido abriria mão da votação que ela teve, mas é importante esclarecer que ela não alcançou esta projeção sozinha. Ela deve muito ao partido. Se não fosse o nosso grupo, ela não teria sido reeleita vereadora. Obtivemos cerca de 27 mil votos e, se não fossem os nossos parceiros, ela não teria chegado. Mesmo com a expressiva votação que teve, ela não alcançaria o quociente eleitoral. Fui traído por ela, sim. Até então, a Graciela estava sem partido (havia saído do PDT). Eu a convidei para vir para o PP. A Graciela chegou a participar da administração Sidnei Rocha e depois mudou de posição. Sabemos muito bem os motivos.
Comércio - Por qual motivo a vereadora deixou a situação e passou a fazer oposição ao governo?
João Marcos - Primeiro, é preciso dizer que a lei do Válter Gomes (que proíbe a contratação de parentes na administração pública) foi muito boa. Não pode haver nepotismo na política. O irmão dela (David Ambrósio), era coordenador da área de Saúde da Prefeitura. Por causa da lei, ele teve de ser desligado do cargo. Isto, com certeza, fez a Graciela mudar de posição na Câmara e passar a atacar o governo. Ela não foi a única a ter perdas por causa da lei do nepotismo. A mulher do vice-prefeito (Maria Ignês Archeti, que foi secretária de Ação Social) foi uma das que saiu.
Comércio - O senhor fala que foi traído pela Graciela, mas nas eleições do ano passado, o PP em Franca deixou a vereadora de lado e fez campanha para Aline Correia, que é de Campinas. Não foi uma traição também?
João Marcos - Não. Absolutamente. Não vejo desta forma. Ela não sentou com o partido nenhuma vez. Em nenhum momento quis conversar. Se a Graciela tivesse procurado o diretório e os vereadores, acredito que poderia ter obtido um melhor resultado, mas ela preferiu seguir sozinha. Negociou a candidatura dela em São Paulo. Sempre ignorou e desprezou o diretório municipal.
Comércio - Em função de todos os acontecimentos, como está sua situação no partido. O senhor permanece filiado ao PP?
João Marcos - Sim. Permaneço filiado. Vamos dar tempo ao tempo. Temos até outubro para nos reorganizarmos e decidir o que fazer. Temos conversando com o nosso grupo, que continua unido e consolidado. Vários companheiros estão nos procurando e esperam a nossa decisão para que possam tomar o caminho deles.
Comércio - A tendência é que o senhor permaneça ou que deva procurar um novo abrigo a partir de outubro?
João Marcos - Não vou antecipar nada no momento. Ainda é muito prematuro. É preciso esperar a hora certa para tomar decisões. Companheiros de outros partidos me ofereceram espaço e me deram a oportunidade de prestar a eles o serviço que prestei ao PP. Certamente, porque a gente deve ter alguma experiência. Às vezes, eu brinco e falo, mas foi um fato verdadeiro: eu fui panfleteiro do Jânio Quadros quando ele foi candidato a governador de São Paulo. Vivi muito a política desde criança. Estou muito tranquilo e seguro. Vários companheiros de outros partidos estão sendo solidários com o deposto presidente do PP, João Marcos. O que me estranha é a ausência de participação do diretório de São Paulo. Até a semana passada, tínhamos uma sede montada, com telefone, internet, conta bancária e todas as contas aprovadas. O PP estava muito mais organizado em Franca do que partidos que já vinham de muitos anos atuando na cidade. Não fomos procurados para nada e desativamos a sede totalmente.
Comércio - Além da intervenção no PP, também houve a retomada do PR. As rasteiras dadas no grupo do prefeito um ano antes do início da campanha eleitoral evidenciam que as eleições de 2012 serão acirradas?
João Marcos - A disputa será muito dura. A administração atual fez um trabalho muito sério. Ela devolveu para Franca uma coisa que a cidade havia perdido há muito tempo, que é o otimismo, o orgulho, o prazer de dizer que mora em Franca. Hoje, as coisas estão muito diferentes de quando assumimos. A situação financeira da Prefeitura está controlada. Antes, era só penumbra. Hoje, o sol brilha na cidade. A administração tem um comandante, tem um líder com elevada aprovação popular. Todo mundo quer sucedê-lo. A cidade, praticamente, está sem problema algum. Está fácil. Por isto, a briga pelo poder será grande. Difícil é pegar como pegamos. Só espero que o próximo prefeito não destrua o que foi feito.
Comércio - Não sua opinião, quem deveria ser o sucessor de Sidnei Rocha? Quem o senhor indicaria como um bom candidato?
João Marcos - Por mais que eu tivesse um candidato de minha preferência, seria muito prematuro dizer agora. De repente, acabaria sendo esta pessoa por coincidência e a gente começaria a desgastá-la antecipadamente. Em política, muitas pessoas não pensam em criar propostas e apresentar ideias. Primeiro, elas se preocupam em denegrir e desvalorizar os seus adversários. Qualquer antecipação, é prejudicial. Não é hora de discutir este assunto, mas não há dúvidas de que dentro do nosso grupo temos excelentes pessoas que podem vir a suceder o prefeito.
Comércio - O senhor pretende se candidatar?
João Marcos - Não. Prefiro trabalhar nos bastidores. Adoro fazer política e sempre estarei disposto a ajudar na busca do que é melhor para a sociedade. As pessoas deveriam participar mais da política, é importante estar democraticamente ligado aos partidos. Não importa qual seja a filosofia. Sem política, você é comandado, jamais comandará alguma coisa. Os jovens precisam participar mais e trazer os eleitores para dentro do partido. O importante é participar para buscar melhorias.
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