O país dos bacharéis


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O bacharelismo não é uma novidade, sobretudo em relação aos cursos de Direito. Nas primeiras décadas do século passado, Sérgio Buarque de Hollanda e Gilberto Freire nos alertaram para esse fenômeno. Antes deles, Eça de Queiroz já ironizara a esse respeito. Em 1888, em entrevista a Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, ele afirmou: ‘a nação inteira se doutorou. Do Norte ao Sul do Brasil, não há senão doutores. Doutores com uma espada, comandando soldados, doutores com uma carteira, fundando bancos. Doutores sem coisa alguma’.

Em país de economia agrária e escravocrata, não havia o que fazer. O caminho para os filhos da aristocracia, e para seus apaniguados, eram os corredores das faculdades de Olinda ou de São Paulo. Com o título na mão, restava a esses bacharéis algum cargo público, no qual poderiam tranquilamente discorrer o retórico saber adquirido, todo ele pomposo, mas sem muita utilidade na prática.

Mas os tempos mudaram. O país industrializou-se, diversificou sua economia e modernizou-se, exigindo outro tipo de saber. No entanto, nossa ânsia bacharelística não sofreu grandes alterações. Mesmo considerando as demandas e as oportunidades nas áreas tecnológicas, continuamos a perseguir o título de doutor.

Nessa busca, mais uma vez priorizamos os cursos de Direito, que servem para tudo e para nada ao mesmo tempo. Se considerarmos que o índice de aprovação médio no exame da OAB é de aproximadamente 10%, vamos inferir que o raciocínio do escritor português continua válido, apenas um pouco mais modernizado. Agora, no lugar da espada, temos advogados/doutores dirigindo táxis, exercendo outras atividades, fazendo bicos e alguns participando de grupos criminosos.

E o pior. Como o país cresceu, aumentou também o número de faculdades.

Aumentou, porém, sem muito critério, de forma exagerada. Temos cadastradas mais de mil faculdades de Direito, um absurdo se compararmos com as 247 dos EUA, um país mais populoso e com mais tradição democrática.

Para piorar, boa parte dessas faculdades apresentam baixa qualidade. Pelo menos é o que mostram as avaliações do MEC, os últimos exames da OAB e a reportagem publicada pelo Comércio no domingo 31/07. Os erros cometidos atualmente pelos nossos bacharéis mostram algo muito pior do que o saber vazio e o discurso retórico apresentado pelos bacharéis de antigamente.

Agora, eles mal dominam a língua portuguesa, com a qual lidam desde os mais tenros bancos escolares. O que dirá do conteúdo jurídico, ao qual foram apresentados mais recentemente?

A situação é complexa. Mas não adianta ficar discutindo o exame ou o número de faculdades. O problema está no sistema de ensino e na tradição cultural. O triste é que estamos ganhando ‘doutores’ sem nenhuma valia e perdendo a oportunidade de somarmos bons técnicos.

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