O funeral da muriçoca


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O competente jornalista baiano Sebastião Nery, em programa da TV Câmara, canal institucional, relatou de forma jocosa fato protagonizado pelo ex-presidente da república Jânio da Silva Quadros, quando ele em 1970, já cassado pela Ditadura Militar, ainda residia em um casarão na capital paulista.

O episódio serve para ilustrar – e bem –, a estreita ligação afetiva entre o ser humano e o seu bicho de estimação. No caso focado pelo jornalista, a ligação afetiva entre o Dr. Jânio Quadros com a sua cachorrinha Muriçoca.

A afetuosa ligação entre o homem e o animal, às vezes não é bem entendida por alguns, especialmente por aqueles que não tiveram a sorte de ter um animal de estimação, notadamente um cão que com muita justiça ostenta o predicado de “melhor amigo do homem”.

Segundo o jornalista Nery, o fato se deu da seguinte maneira: em um almoço na residência do Dr. Jânio se encontravam presentes diversos políticos e jornalistas, dentre eles o próprio Sebastião Nery, Padre Godinho, Roberto Cardoso Alves e José Aparecido.

Terminada a refeição, após a sobremesa, já estavam todos saboreando o café que foi servido na sala de estar, quando de repente adentra no recinto Dona Eloá, esposa do Dr. Jânio. Ela apresentava visível nervosismo e já bastante emocionada pediu licença aos presentes e sussurrou algo ao ouvido do Dr. Jânio.

Imediatamente o ex-presidente começa a chorar, descabelar e esbravejar a plenos pulmões, exclamando: “A Muriçoca faleceu, logo ela que nunca me abandonou, esteve comigo nos melhores e piores momentos da minha vida, inclusive no dia da renúncia e na cassação”.

Todos os presentes, segundo Nery, ficaram atônitos com a reação do Dr. Jânio, embora todos soubessem que Muriçoca era a cachorrinha de estimação dele, já bastante idosa e cardiopata. Imediatamente, o Dr. Jânio convoca todos os presentes, inclusive o Padre, para o funeral do pobre animal.

Segundo o narrador, o próprio Jânio, munido de uma pá e ajudado pelo José Aparecido, cavou uma pequena sepultura no vértice do jardim da casa. Dona Eloá cuidou de ornamentar a cova com pétalas de rosas e Muriçoca acabou sepultada na presença de grandes expoentes da política e do jornalismo brasileiros, após breve, porém emocionado discurso do Dr. Jânio, realçando as qualidades da falecida, especialmente a lealdade.

Posteriormente, não satisfeito, o Dr. Jânio mandou fazer uma placa de bronze que foi afixada junto à cova de Muriçoca, contendo os seguintes dizeres: “Para a nossa Muriçoca, a saudade eterna de Jânio e Eloá”.

Tenho em minha casa três cachorrinhas Maltesas. Penélope – a avó –, Loli – a filha – e Nani – a neta. Exatamente por esta razão e pelo que elas representam para a minha família, é que consigo compreender a reação e a atitude do Dr. Jânio. Portanto, não comungo do pensamento de alguns de que tudo não passou de um jogo de cena do ex-presidente, coisa que sabidamente ele era especialista.

Setímio Salerno Miguel
Advogado Empresarial e Professor da Faculdade de Direito de Franca

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