Padre pop


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No ensaio ‘A Crise da Cultura’, datado dos anos 70, a filósofa alemã Hannah Arendt sugere que uma ‘mídia dirigida pelo mercado lideraria o deslocamento da cultura pelos ditames do entretenimento’. Vários outros críticos seguiram-lhe em apoio, denunciando a banalização dos produtos concebidos pela indústria cultural, voltados para o entretenimento fácil e superficial.

De fato, a partir dessa década a cultura ‘pop’ se fortaleceu, amparada sobretudo pelas modernas tecnologias que facilitavam a produção e permitiam sua rápida divulgação. Arte e cultura passaram então a se comunicar mais diretamente com as massas e livraram-se do hermetismo que caracterizava a arte moderna. Com signos e símbolos retirados do imaginário que cerca a vida cotidiana, transformaram-se em ‘popular, transitória, consumível, de baixo custo, produzida em massa, jovem, espirituosa, sexy, chamativa, glamourosa e um grande negócio’, conforme diria Richard Hamilton, um dos primeiros artistas a percorrer esse caminho.

O que ninguém esperava, no entanto, era a entrada da religião nesse universo. No caso da igreja católica, porém, o motivo foi estratégico. Ameaçada pelas igrejas pentecostais, resolveu seguir-lhes os passos para reter a saída de fiéis e atrair mais jovens para o sacerdócio. Mesmo que ainda dogmática e conservadora em seus princípios, permitiu a midiatização dos cultos, adequando-os às demandas da sociedade atual.

Por meio da Renovação Carismática Católica (RCC), de onde provém a maioria dos padres cantores, renovou o formato de seus cultos e passou a atrair multidões. Nessa mudança, trocou o silêncio, a reflexão e a penitência pelo canto, pela efusão e pelo movimento. Como se fosse um show, concentrou-se na catarse e na emoção, relegando a segundo plano a razão reflexiva.

Se no âmbito da arte e da cultura essas disputas conceituais já renderam quase um século de debates, no plano religioso não está sendo diferente. Os mais conservadores criticam o que qualificam como uma excessiva midiatização da liturgia. Alguns até aprovam essa forma de reavivamento espiritual e de reencontro com a fé, mas criticam os momentos de louvor em que há muita emoção, pouca razão e o privilégio do espiritual em detrimento do social.

Por outro lado, muitos integrantes do clero católico acreditam que essa midiatização recuperou antigos fiéis e incentivou novas vocações sacerdotais. Os números do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (CERIS) confirmam essas previsões.

Como no âmbito da cultura, o debate é complexo. No momento, porém, o problema para a Igreja Católica talvez seja saber se a multidão que comparece aos cultos/shows está em busca do padre/artista, da catarse ou da palavra de Deus. Como a cultura de massa tende a trazer tudo para a superfície e para a neutralidade, ela corre o risco de recuperar o velho Marx, fazendo da religião atual apenas mais um espaço de alienação.

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