Todos os anos, sempre no primeiro fim de semana do mês de agosto, o Clube das Cavalhadas de Franca apresenta uma encenação no Parque Fernando Costa para representar a guerra entre dois grupos de religiões diferentes: os cristãos e os mouros, que, durante muito tempo, lutavam para fazer valer suas diferenças religiosas.
Durante a Idade Média, período da história que começa no ano de 476 depois de Cristo e que se estende até por volta de 1453, vários reis cristãos da Europa, querendo levar o cristianismo a povos não cristãos e obrigá-los a seguir a religião cristã, guerreavam contra esses grupos para convertê-los. O povo mouro, que seguia os ensinamentos de um profeta chamado Maomé, era um dos enfrentados pelos reis cristãos.
Os mouros também queriam impor sua religião aos cristãos, ao tentar convertê-los ao Islamismo. Assim, as guerras ficavam cada vez mais violentas, já que, para os dois grupos, a conversão era uma forma de mostrar seu domínio sobre o rival.
No século VI, o rei do Império Franco, Carlos Magno, saiu a cavalo pela Europa com seus 12 soldados de honra para impor o domínio cristão aos mouros que povoavam o continente. Na famosa batalha de Carlos Magno e os 12 pares da França, o imperador consegue vencer os mouros no sul do território francês e fortalece o cristianismo na região. É essa a história retratada pelas cavalhadas, que foram instituídas por volta do século XIII em Portugal, pela rainha Isabel, a fim de relembrar o episódio tão importante para os cristãos.
Estima-se que as Cavalhadas tenham chegado ao Brasil por volta do século XVII, durante o período em que o país pertencia aos portugueses.
Hoje, a celebração cultural é realizada em vários estados brasileiros e há sempre diferenças entre a forma como é apresentada, de acordo com a região. Em Goiás, por exemplo, além dos nobres, como soldados, príncipes e reis, a encenação também conta com os mascarados, que representam o povo. Em Franca, há dois príncipes (um mouro e um cristão), uma princesa, um rei, dois interceptores (um cristão e um mouro que cuidam dos castelos), dois embaixadores (o cristão e o mouro que são porta-vozes do rei), os contra-guias (um mouro e um cristão que re-presentam o rei no exército) e os soldados.
As Cavalhadas foram realizadas pela primeira vez na cidade em 1831, por Hilário de Campos. As batalhas fictícias eram abertas ao público e aconteceram na Praça Nossa Senhora da Conceição.
Atualmente, quem organiza o evento em Franca é o Clube das Cavalhadas, com o apoio do governo municipal, estadual e federal e de algumas empresas francanas. Durante os dois dias de apresentação, mais de 5 mil pessoas assistem ao teatro organizado por cerca de 100 membros do clube.
Para Gabriel Anawate, presidente da organização, o evento é muito importante para a cidade por ser a tradição mais antiga de Franca “Precisamos valorizar nossos costumes”, disse.
Neste ano, o evento será realizado no Parque Fernando Costa nos dias 6 e 7 de agosto, às 20h00 e às 14h00 respectivamente. A entrada é franca.
Crianças em cena
Das 100 pessoas envolvidas na organização das Cavalhadas da Franca, 5 são crianças. Elas participam dos ensaios, que acontecem três vezes por semana, durante a noite, e desempenham papéis importantes nas encenações.
Guilherme Oliveira Teodoro, 10, participará da festa pela primeira vez este ano. O menino interpretará o príncipe mouro e disse estar muito ansioso pelo grande dia. Guilherme sempre gostou da ce-rimônia e freqüentemente acompanhava os amigos que participavam da peça nos anos anteriores. Fascinado por eqüinos, o jovem que monta a cavalo há 3 anos sonhava em participar das Cavalhadas até que o esperado convite chegou. Na expectativa, o menino já chamou até seus colegas para assistir à encenação no fim de semana e pretende participar da cerimônia por pelo menos mais 20 anos “Quero chegar a ser rei”, revela.
Victor Martins Leite, 10, também será príncipe pela primeira vez e se mostrou muito contente em poder participar da apresentação. Victor é incentivado pela sua mãe, Roseli Leite e pelo pai, que corre nas cavalhadas há 25 anos. O menino sabe que a beleza do trabalho que fará exige muito esforço e dedicação, mas ressalta que não liga em passar muito tempo ensaiando “Vale a pena. É muito gostoso”, disse
Roseli Leite, mãe de Victor, também é mãe de Letícia Leite, que já foi princesa, e de Samuel Martins Leite, que atualmente interpreta um soldado, e conta que fica orgulhosa de ver os filhos encenando o teatro, mas não deixa de ficar tensa ao vê-los correr a cavalo “Dá sempre um frio na barriga quando as crianças entram”.
Laís Nascimento Leite, 13, será a princesa moura deste ano e disse estar realizando um sonho “Sempre quis ser a princesa e me orgulho em poder participar de um evento tão diferente do que estamos acostumados a ver”.
Gabriel Anawate Filho, 14, era príncipe e será soldado pela primeira vez. O menino disse achar muito emocionante a entrada dos soldados na noite de sábado e sempre quis entrar com eles “Agora chegou a minha vez também”, contou satisfeito.
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