Eterna reclamação


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Os calçadistas estão reclamando. Dessa vez é por conta do dólar. De certa forma, não deixam de ter razão. Quanto mais baixo o valor dessa moeda, mais caro se torna o produto brasileiro no mercado internacional. Fica mais difícil vender, é verdade, o que prejudica nossas empresas. No limite, pode causar uma desindustrialização em setores mais vulneráveis, como calçados e têxteis. Nesse cenário, quem muito depende da exportação poderiadecidir pelo fechamento da fábrica ou pela mudança de endereço, passando a produzir em países com salários e carga tributária menos impactantes. O desemprego nessas regiões seria inevitável.

O problema, porém, está na excessiva seqüência de reclamações. Em determinado momento são os chineses. Em outro, os impostos. Agora é o dólar. Nossos empresários estão se acostumando ao choro, ao invés de perceber e lutar pelas oportunidades que sempre se escondem por trás dos problemas e desafios.

Na esfera do mundo globalizado, a força do capital internacional não é nenhuma novidade. No jogo de forças com os governos locais, tem ganhado sobejamente. Com os blocos econômicos ou com países mais influentes acaba cedendo um pouco mais. De qualquer forma, consegue limitar a vontade política de um governo, até porque, mesmo internamente, os interesses também são bastante variados. O que é bom para um setor, não é necessariamente bom para outro.

Nesse sentido, ao invés de ficarem apenas reclamando do governo, dos chineses, do dólar ou dos impostos, nossos empresários poderiam pensar em formas de atuação que superassem os entraves. Para começar, poderiam refletir sobre suas abordagens administrativas. Se o fizerem, perceberiam que o modelo organizacional clássico, baseado na integração vertical e na burocracia ‘weberiana’, já não responde totalmente às novas exigências de um ambiente social e empresarial cada vez mais flexível.

Para fugir desse impasse, poderiam optar por redes horizontais de colaboração, unindo toda a cadeia produtiva do calçado e outras instituições públicas e privadas de apoio e fomento.

Dessa forma, nossos empresários poderiam cooperar de forma autônoma e independente, comprando conjuntamente matéria-prima e insumos, compartilhando equipamentos ou desenvolvendo novos produtos e processos.

Poderiam, também, cooperar de forma mais intensa, fazendo uma associação de negócios, formando cooperativas de créditos ou consórcios de produtos.

Além disso, poderiam desenvolver incubadoras de empresas com o poder municipal e investir conjuntamente no treinamento e desenvolvimento de seus colaboradores, unindo forças com entidades educacionais.

Já existem vários casos de redes horizontais (ou clusters) bem sucedidos.

Já existem muitos estudos sobre redes organizacionais. O Sebrae, inclusive, já apóia o setor calçadista com seu APL (Arranjo Produtivo Local) voltado para o calçado. O que falta é vontade política ou visão empresarial.

Continuar reclamando não vai adiantar. O dólar, os chineses e os impostos estão pouco se lixando.

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