Mostra Literária no Ave, Palavra!


| Tempo de leitura: 4 min

“(...) não é possível cozinhar com rancor. (...) não dá para
escrever com raiva. O coração
precisa estar sintonizado com os
outros, ternamente, embora, na
maioria das vezes, eles nem
saquem esse lance. Não faz mal. O essencial, como disse Exupéry,
é invisível para os olhos.
O resto é fast food”.

Sonia Machiavelli,
in Comer e Escrever, 1999,
A bolsa grená.

O “sapateiro” Luiz Cruz .

As origens do ofício de escritor do prof. Cruz estão distribuídas em duas salas quase nuas. Fotos nas paredes montam sua árvore de inspiração máxima: pais, irmãos e filhos. Raízes. Frutos: as múltiplas obras, que não nomeio aqui, por serem muitas, mas que o leitor pode apalpar e ler. Na sala seguinte, os colegas-escritores, estes que Cruz não cansa de relembrar, os mortos, e os vivos, que incentiva, incansavelmente, a publicar. Trabalho sintetizado no seu livro Esboço da História da Literatura Francana. Em outra sala da bendita casa de Ave, Palavra!, inúmeras caixas de sapatos (como em uma sapataria) com os nomes dos francanos (o leitor confira lá quantos!!!) que escrevem há 100 anos. Dentro das caixas com os nomes dos autores estão as publicações (há caixas leves e pesadas). Você pode folhear os suplementos literários, belamente encarnados, o Nossas letras, do qual é colaborador há muitos anos. Cruz coteja o labor com as letras, com o do sapateiro, trabalho artesanal, que calça os pés, no país e fora dele. Uma metáfora sob medida para Franca! O Livro calça a mente, que pode caminhar mais longe do que o caminhar dos pés pelas Trilhas da vida. Mais um dos Bilhetes de Cruz.

O Livro, afinal, protege e aparelha a quem sabe usá-lo. Bacana pensar no autor como “sapateiro da mente”. Nobre guardar os livros em caixas para a posteridade. Impossível não corresponder a este entusiasmo e vitalidade do Cruz, a ciceronear suas Trilhas palavreadas. Ele já avisou: Por enquanto eu canto. E segue recheando a sua caixa, pesada, de calçados-livros!

A “tecelã-cozinheira” Sônia Machiavelli

Da rua se avistam os cristais e origamis. Balouçam, exibindo os hai-kais, arautos do gosto sofisticado de Machiavelli, a tecelã que bem cozinha as palavras cruas e nuas. Árvores, no alpendre, atestam o amor de Sônia Machiavelli pela cidade a quem dedica o labor literário cotidiano, aglutinador. Com que generosidade garante espaço à diversidade de estilos de escrita francana! E com tal excelência da sua literatura, extensa a todos os gêneros: romance, crônica, conto, poesia. Domina universos distintos: o infantil, Clubinho, a Gastronomia. Com firmeza e coragem, maestria no domínio da língua-mãe, sustenta o Nossas Letras, no Comércio da Franca, espaço-mor para os escritores da terrinha.

Objetos, fotos, palavras, dão pistas dos motivos oníricos, perfumados, bordados, cozidos e cosidos na sua escrita. Três momentos da autora em painéis: de A Bolsa Grená a crônica da infância, elegendo o G.E. Coronel Francisco Martins como “uma das certezas” de Sônia, de que não mais o esquecerá. O trecho do conto O despertar de Antônia (do livro Estações), é metafórico da escritora zelosa de sua Memória, que acorda os objetos que a habitam no mudo mundo criado do seu ser. No conto Bonecos de Barro, in O Poço, em coloquial linguagem caipira, o desejo da autora em soprar vida à sua escrita, fazer voejar as palavras, dando alma ao imaginado. Sônia tecelã-cozinheira cose palavras e nos ajuda a cozer a realidade nua e crua!

Poemas em panos coloridos, nos varais de arame farpado, nos contam da dor dos espinhos e da cor vibrante das palavras ao vento e ao sol.

Estamos convidados para o Jantar na Acemira, a mesa posta, toalha antiga bordada, guardanapos e louças de época. No “lugar da dor”, significado da palavra Acemira. O morro da Cabecinha, personagem do romance, se avista da janela da sala. Romance saudado como obra-prima pelos escritores francanos, Sônia conta uma história bordada com fios medrados em seu rico interior, inscrita em chaves de significados que se desdobram ao leitor-gourmet, que aprecia ler e reler. Abre os nichos das palavras nos nomes próprios, na culinária, bebidas, descrição das flores, insetos, cenários, personagens e na trama da história. Associações profundas entre todos os Reinos - animal, vegetal, mineral e humano. Cinco mulheres e cinco homens, em volta da mesa redonda, em uma negociação, que envolve passado e presente, e se decide o futuro. O mote central do livro (p. 17), na minha leitura é “o maior come o menor, o mais forte se alimenta do mais frágil”. Espelhos na parede revelam os demônios nas almas dos comensais participantes da mesa-Mundo.

Degustar motivos que levam o escritor a escrever é banquete. A Mostra Literária termina hoje, às 15 horas. Oportunidade imperdível de nutrir fartamente a alma. E agradecer a festa.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários