Na minha infância, não tive vídeo-games, nem televisão com seus desenhos animados. Não viajei para as praias do litoral e nem para a Disney World. Eu tinha um Vale encantado, um lindo Vale: o Vale dos Bagres. Ali eu guardava, descobria e realizava os meus sonhos de criança. Situava-se abaixo da Rua Homero Alves e prolongava-se da ponte da Rua da Estação até o atual viaduto da Rua Batatais.
O Vale era muito fértil e, portanto, sua mata, exuberante. Havia arranha-gatos (arbustos cheios de espinhos) que rasgavam as nossas roupas e feriam os nossos braços e pernas. Havia angicos, paineiras, assa-peixe e as urtigas, plantas venenosas e traiçoeiras que podiam irritar partes delicadas de nosso corpo. Havia, também, as mamonas de cujos ramos fazíamos flautas e dos frutos, projéteis a serem arremessados pelos estilingues nas cabeças raspadas dos adversários. Da mata ainda tirávamos os nossos arcos e flechas, as nossas lanças e tacapes, os paus e as folhas para a construção das cavernas. Dos paus de pita fazíamos barcos, leves como plumas, que navegavam sobre águas represadas. Adoçávamos a boca com as jabuticabeiras do mato, as bananeiras, as goiabeiras e outras frutas das quais não me lembro o nome.
Depois das 2 da tarde, descíamos para o Vale com peneiras nas mãos. Pescávamos no córrego dos Bagres. Pescávamos lambaris, piaus, cascudos, girinos e, obviamente, bagres. Eram peixes pequeninos. Batíamos as peneiras até as proximidades da grande cachoeira, localizada abaixo da ponte da Rua da Estação, que descia espumante e turbulenta sobre as pedras negras que lhe serviam de leito. Se quiséssemos apreciá-la de mais perto e logo no início de sua queda, subíamos agarrando uns cipós grudados numa pedra que ficava paralela à cachoeira. Dali admirávamos as águas que fluíam e as pessoas que transitavam pela ponte. O cenário era muito bonito, embora as águas do córrego, salobras, já trouxessem um cheiro desagradável de poluição.
Ao pôr do sol, esperávamos que os carroceiros soltassem seus animais para pastar e, com um cabresto improvisado de cordas, tornávamos a prendê-los novamente e montávamos em seu pelo para cavalgar pelas trilhas do Vale até a chegada da noite.
À noite, o Vale se apagava e desaparecia. Em seu lugar só ficavam as trevas. Trevas que escondiam os mistérios da noite e os amores furtivos. Do portão de minha casa, não se via nada. A escuridão ocultava a paisagem. Era a hora dos insetos de todos os tamanhos e formas. Bruxas, besouros, mariposas e aleluias buscavam a luz de um poste solitário de iluminação pública. Do fundo do Vale, miríades de vagalumes surgiam , ganhavam o céu de azeviche e, nas alturas, começavam o seu bailado. As trevas eram pautadas pelo verde fosforescente dos insetos voadores. Era um espetáculo magnífico e inesquecível.
Tudo foi tão deslumbrante e passou tão rápido como a luminosidade dos pirilampos. Destruíram a cachoeira. Canalizaram o córrego. Substituíram a mata pela grama, pelas calçadas, pelo asfalto. Tudo ficou tão limpo, tão organizado e tão sem graça. Não há mais crianças brincando no Vale. À noite, não se encontra animais para montaria Só os carros transitam velozmente com seus faróis ofuscantes e ameaçadores. A voragem dos tempos engoliu o meu Vale, a minha infância , os meus pirilampos. Sobraram-me as trevas. As trevas e um pequeno vagalume que, vez por outra, com suas luzinhas esverdeadas, ilumina em minha memória o Vale encantado da minha infância.
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