Da festa onde Lúcia e Carlos celebraram seus 40 anos de casamento, ao lado dos quatro filhos, cinco netos, familiares e dezenas de amigos que se deslocaram ao Araxá para cumprimentá-los, muito já se falou. Como comentou o Anderson Pinheiro, foi refinada e irretocável. Eu acrescentaria que esteve repleta de sentidos: sonhada pela anfitriã e sonhante para os convidados recebidos no dia 9 de julho no Salão Minas do Acauã, que continuo chamando Grande Hotel do Barreiro. Como disse a colega Patrícia, ' hotel que parece palácio europeu '. Ela sabe do que fala, jamais confundiria antigo com velho.
O que tem a ver a família Brigagão, as bodas de esmeralda e meus modestíssimos doces? Seguinte: fui uma das pessoas honradas pelo convite, o que me ensejou participar do jantar e desfrutar do menu, dos vinhos, das companhias à mesa, das alegrias da música, da viagem proporcionada pelo vídeo exibido, e também dos souvenirs entregues no final. Entre eles, uma cestinha com doces feitos a partir dos cadernos de receitas da mãe de Lúcia, a saudosa Dona Clara, a quem conheci e com quem conversei algumas vezes. Quem leu o que Lúcia escreveu em sua coluna dia 15, sexta, aqui no Comércio, terá uma idéia de quem foi essa grande doceira da Franca.
Falando da mãe, de seus cadernos de culinária, de sua vocação para desenvolver processos alquímicos na cozinha, anotando aqui e ali o que poderia ser inovado ou o que jamais deveria ser mexido, Lúcia me contou que ela e a irmã, Maria Helena, já adultas, ao tentar reproduzir alguma dessas receitas, por uma razão que não cabe especificar, às vezes omitiam algum ingrediente. Foi o caso de um docinho ao qual surrupiaram "uma pontinha de gelatina", achando que a quantidade, sendo mínima, não influenciaria no resultado final. Não foi bem assim. E a mãe acusou a subtração à primeira prova.
Achei por demais delicado Lúcia ter incluído a mãe na sua festa através dos doces. As pessoas que fazem de sua vida algo consistente, permanecem muito vivas na memória dos que ficam. E mesmo os que, como eu, não tiveram com Dona Clara senão alguns breves momentos de prosa, são contagiados pela magia de sua aptidão, de seu gosto, de sua seriedade, de seu compromisso com o bom, o belo, o prazeroso. Foi assim que ela me inspirou na vontade de criar algo a partir de uma receita que já conhecia e se chama Delícia. Achava que sendo tão saborosa, merecia uma outra cor que não o tom pálido do abacaxi, e um ponto um pouquinho mais sólido. Lembrei-me da história da gelatina, usei "uma pontinha”, e adorei o resultado.
Na ilustração o leitor pode ver o sousplat que os convidados puderam levar para casa, no fim da festa. É delicado, romântico, muito bonito e traz a assinatura da anfitriã.
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