A dona de casa Dora (nome fictício), 43, foi internada no Hospital Psiquiátrico “Allan Kardec” em julho de 2008. À época, ela sofreu um surto de esquizofrenia - desordem cerebral crônica. Foi tratada por um período de seis meses e recebeu alta médica. Em casa, precisaria manter o tratamento para não sofrer novos surtos. Dora sabe ler, escrever, conversa normalmente com as pessoas. Mas não pode deixar o hospital por um único motivo: a família não a quer por perto.
Dora não é a única paciente nessa situação. Atualmente, há outras 27 pessoas que receberam alta médica, mas que não voltaram para casa porque a família não buscou. São homens e mulheres, com idades entre 20 e 40 anos, que estão liberados para o convívio familiar. Um deles, um homem de 32 anos, espera pela mãe, que mora em Ituverava, há seis anos.
O hospital alega que não pode abrir as portas e liberar os pacientes. “A família tem que vir retirá-lo. Não podemos nem deixar na porta da casa”, disse Wanderley Cintra Ferreira, presidente do “Allan Kardec”.
Segundo Cintra, os pacientes em alta têm de ser acompanhados e medicados. E é justamente essa situação que leva ao abandono. “Os familiares alegam não ter condições de cuidar, que o paciente fica agressivo quando chega em casa. Mas, se ele não se alimentar direito, não tomar os medicamentos, acaba surtando e volta para o hospital. É uma pessoa que não está curada. Está com a doença estabilizada e bem para voltar para a casa, mas precisa de acompanhamento.”
A situação das famílias, de fato, não deve ser das mais fáceis. A mãe de Dora, pelo que parece, enfrenta tantas dificuldades para cuidar da filha em casa que não quer levá-la e já ameaçou acionar a Justiça para impedir sua liberação do hospital. Dora também tem um filho de 17 anos. “Nem a mãe e nem o filho vêm visitá-la. Ela demonstra desejo de ir embora, diz que tem saudade do filho. É uma pessoa que poderia conviver socialmente, mas a rejeição é muito forte”, disse Lázara Maria Bernardes Batista, administradora o hospital.
No caso do rapaz de Ituverava, a situação é diferente. Segundo Lázara, a mãe é sozinha e não tem condições de manter os cuidados que o filho necessita. Ele poderia viver em casa, mas tem retardo mental e sofre surtos com mais frequência. Ainda de acordo com Lázara, boa parte dos pacientes em alta sequer recebe visita. “São pessoas com vínculos familiares muito frágeis.”
Apesar de relatar a história de alguns pacientes, a direção do hospital não autorizou a reportagem a falar diretamente com eles nem forneceu dados sobre suas famílias.
ATIVIDADES
Para que a permanência desses pacientes no hospital seja a menos sofrida possível, eles passam parte do dia em oficinas de artesanato, envolvidos em serviços de jardinagem e horta, além de participarem de aulas de teatro. Na semana passada, por exemplo, um grupo apresentou o espetáculo “Deu a Louca no Chapeuzinho Vermelho” para os idosos que frequentam o CCI (Centro de Convivência do Idoso). Há ainda sessões com psicólogas e assistentes sociais.
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