O banco de cimento não tem encosto, por isso, não podendo recostar-se, o velho está inclinado para a frente, com ambas as mãos na bengala, o queixo nelas apoiado. Absorto, leva susto quando seus devaneios são quebrados pelo cumprimento.
- Bom dia, meu senhor. Dá licença?
O recém-chegado já está sentado, muito antes de a aquiescência chegar.
- Hein? O que o jovem disse?
- Falei bom dia, pedi licença pra sentar.
- Ah! Sim, sim... pois não... Fique à vontade.
- O senhor está bem?
- Estou... estou sim... Estava distraído. Qual a graça do rapazinho?
- Graça?
- É... o nome do jovem.
- Ah... Luiz. Meu nome é Luiz Carlos Alves.
- Chico Franco, às suas ordens.
As palavras acompanham o gesto de descobrir-se que resulta em apenas leve toque na aba do chapéu branco..
- Eu atrapalhei o senhor?
- Não, não. Eu estava aqui, olhando a Agência Brasil. Quando era menino, eu trabalhei ali. Vendia revista na rua. Eu e mais uns dez moleques, tudo de calça curta. Cada um saía para um lado da cidade, ia atrás da sua freguesia.
O interlocutor parece atento, e Chico Franco , como se distribuindo jornal, vai dividindo as suas memórias, construindo no outro uma Franca que não mais há.
Eram dois irmãos: Juca e Geraldo. Adolescentes, iam toda noite, lá para a Estação, esperar a chegada do trem da Companhia Mogiana. Retornavam ao centro carregando pacotes de revistas e jornais, esperavam o final da sessão do Cine Teatro Santa Maria, vendiam novidades para a platéia de filmes mudos.
Assim que ficaram moços, abriram firma na Praça Barão, Papelaria Agência Brasil, no mês de janeiro de 1935, a qual está ali até hoje.
- Agora é dirigida pelo Rosalvo, filho do senhor Geraldo e da dona Zélia. É a firma comercial mais antiga de Franca.
O interlocutor fica sabendo ainda que o senhor Juca era pescador inveterado, viajava longe, em companhia do Barion, o fabricante de chuteira.
- Os meninos vendiam muita revista?
- Ah, se vendiam.
E o velho vira menino outra vez, percorrendo ruas da Franca de outrora.
Desce a Rua General Teles, vira à esquerda, visita freguesas ricas lá na Vila Flores. Elas compram revistas de corte e costura, que trazem moldes e modelos. Volta, desce e sobe a Rua da Estação, vendendo O Cruzeiro nas barbearias e nos institutos de beleza. Os fregueses gostam das reportagens do Davi Nasser e das piadas do Amigo-da-onça. Lá na Estação, vende a Revista do Radio e a revista Capricho. As mocinhas e rapazes gostam da Emilinha Borba, querem ver retrato da Mamãe Dolores, saber da vida dos artistas da novela O Direito de Nascer.
- A gente ganhava dez por cento do que vendia.
- Era muito?
- Às vezes era. Quando A Voz do Rádio, o cantor Francisco Alves, morreu, em meia hora não existia mais revista, acabou tudo.
A voz do velho se entristece.
- Acabou tudo... O jovem também é aposentado?
- Quem me dera. Ainda trabalho. Sou mecânico, tenho uma oficina ali na Rua Batatais. Estou aqui só esperando um freguês. Aliás, ele chegou. Até mais ver, meu senhor.
- Até mais.
O velho leva a mão à aba do chapéu, mas o outro já está de costas, já caminha para longe, não percebe o gesto.
O homem de terno branco permanece sentado, as mãos apoiadas na bengala, os olhos agora fixos no prédio que abrigou a Lâmina de Ouro.
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