Conheci Luizinha Trajano no século passado. Amiga da minha irmã, estudavam na mesma classe no Coleginho
Turminha grande e barulhenta: Leda Miguel, Marlene Leporaci, Maria Helena Maníglia, Lena Rosa, entre outras. Reuniam-se para estudo em grupo e, quase sempre, Luizinha não estava presente: ‘precisava ir para a loja, ajudar tia Luiza’. Enquanto as outras se juntavam para estudar (um pouco), falar dos namorados (um montão) e tomar lanche no intervalo, Luizinha já tinha responsabilidades na empresa.
Não deixava de cumprir seus compromissos com o grupo - tudo que lhe competia, executava, mas em primeiríssimo lugar vinham suas obrigações para com a família. Deu no que deu... Já era líder nessa fase de vida e de sua vida escolar. Por causa dos compromissos profissionais não estava sempre presente nas reuniões do grupo mas, quando estava, sabia ouvir, avaliava as posições das colegas, ponderava, suas opiniões eram acatadas e sua palavra prevalecia pois apoiada no bom senso e na sua rara capacidade de analisar as situações em todos seus ângulos e como um todo. Sempre teve jeito franco e direto de falar que poderia ser facilmente confundido com autoritarismo, não fosse sua delicadeza para com o semelhante, seu respeito pela opinião alheia, sua habilidade e simpatia para lidar tanto com superiores quanto com subalternos.
Já vi Luizinha conversar com funcionários do Magazine – generais e soldados rasos. Ela pergunta primeiro, ouve, decide em seguida, rapidamente, sem deixar o interlocutor se perder. Já vi Luizinha liderar reunião com caciques de grande porte. Age da mesma forma. Como mulher fico extremamente orgulhosa dela: não humilha quem quer que seja, não é revanchista, não é vaidosa, não é autoritária, só que não tem tempo para firulas e decide rápido e é exigente. Um dia, a vi terminar reunião de empresários, sobrepondo-se sobre vozes alteradas e de maior volume que a sua, quase falando para si mesma: ‘Nunca termino um encontro sem fechar o assunto, ou deixar em aberto questões cuja quantidade ultrapasse a dos dedos da minha mão.’ Aprendi a lição.
Já ouvi histórias engraçadas a seu respeito, evidências e provas de seu jeito bonachão, ingênuo e simples de ser. Já frequentamos o mesmo despretensioso salão de cabeleireiros onde ela se confundia com outras clientes e deixava poder, títulos e qualquer vestígio de grandeza que pudesse exibir, do lado de fora. Já fui testemunha de sua bondade e capacidade de compartilhar a dor alheia. Já participamos de uma trilha na Serra da Canastra quando tive a honrosa oportunidade de lhe ensinar como nós, mulheres, podemos nos virar nos trinta quando a coisa aperta...
Nunca frequentamos o mesmo grupo de amigos e, nas festas às quais fomos, raríssimas vezes nos sentamos na mesma mesa. Isso não impediu que quando tivéssemos oportunidade, nossos encontros fossem frutíferos e que conversássemos sobre assuntos diversos – daqueles de mães, mulheres, amigas, companheiras. Logo que enviuvou, sonhei que conversara com Erasmo, seu marido, num sonho bonito, no qual ele confirmava sua afeição e carinho por ela: talvez um recurso que meu inconsciente usou para eu mesma reconhecer minha admiração por ela e seu significado na cidade e história da cidade. Tivemos vidas paralelas mas próximas: eu a via do lado de lá, ela me via do lado de cá...
A notícia que Luizinha recebera convite para compor quadro do governo, não me causou espanto. A presidente Dilma é inteligente, esperta, e há muito percebeu o potencial maravilhoso da nossa conterrânea. Ninguém sabe se ela aceitará ou não: prospecta-se um bocado, Luizinha diz que não, mas todos sabemos do seu arraigado senso de dever: o ‘verás que um filho teu não foge à luta’ tem sentido muito forte e não deixa de ser promessa e compromisso que fazemos e reiteramos toda vez que cantamos nosso Hino. Não ficarei surpresa se ela aceitar o convite. Meu orgulho por ela é que ficará mais sólido.
ASPAS
‘Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos.’(Vinícius de Moraes)
PIONEIRAS
Dilma é a primeira presidente brasileira do sexo feminino. A primeira mulher a ser eleita no País foi a doutora Carlota Pereira de Queirós, em 1933, para o cargo de deputada federal. Euníce Michilis, eleita em 1979, é nossa primeira senadora. Esther de Figueiredo Ferraz, em 1982, tornou-se a primeira ministra: Educação e Cultura. O ano de 1989 marcou a primeira candidatura de uma mulher à presidência da república: Maria Pio de Abreu. A primeira governadora brasileira foi Roseana Sarney em 1995 e é também ela, a primeira mulher a se reeleger (em polêmicas eleições) no ano de 1998.
INCRÍVEL
Os ‘machadistas’, para quem tudo e o modo como Machado de Assis escreveu tem valor de lei, confirmam que o feminino de presidente é presidenta. O dicionário não registra, soa esquisito (mestre Palermo dizia que o primeiro sinal de impropriedade é acusado por nosso próprio ouvido) e, atualmente, a exigência do uso deste particular feminino beira o ridículo nas publicações oficiais. Mas, justificam os puxa-sacos da presidente, ‘Machado usa!’ Petista tem cada uma...
CLÁSSICO
O Escândalo da Princesa, com Sophia Loren, John Gavin e participação de Maurice Chevalier, é de 1960. Sophia tinha 26 anos, uma cintura que não ultrapassava meio metro, estava nas telas desde 1950 e já era casada com Carlo Ponti. O filme é bobo de doer. As locações, maravilhosas: Viena e seus castelos. Os artistas coadjuvantes são fantásticos. A história é ridícula. O figurino suntuoso. John Gavin, com 29 anos, era um deus grego: podia ser confundido facilmente com Rock Hudson, vale dizer, bonito pra caramba. Mas são noventa e sete minutos de pura curtição.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br
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