A idéia, que por muito tempo transformou-se em uma verdadeira cultura, de que se deve ganhar sempre independentemente dos meios empregados, seja no esporte, na política, no contencioso judicial ou no mundo dos negócios, felizmente está com seus dias contados. Hoje há, sem dúvida, uma grande valorização da vitória, do sucesso e do lucro obtidos com empregos de meios lícitos, valendo-se de mecanismos limpos. A máxima de Machiavel de que ‘os fins justificam os meios’ não encontra mais ressonância.
Não há mais espaços para recordes obtidos com o uso de substâncias proibidas, tais como esteróides anabolizantes ou gols irregulares, como o famoso gol de mão de Diego Maradona na Copa de 1986, ou, ainda, o gol que classificou a França para a Copa de 2010.
No mundo dos negócios, a competitividade deve ser estimulada. Sabe-se que a concorrência leal é salutar, pois ela garante ao consumidor, barateamento de preço de produtos e serviços, e melhora da qualidade. Houve, no passado, um comercial de cigarro protagonizado por famoso futebolista da época, estimulando as pessoas a levar vantagem sempre, qualquer que fosse o meio empregado. Hoje uma mensagem publicitária com tal conteúdo redundaria em total fracasso sob o ponto de vista empresarial.
Nos embates judiciais, recentes alterações legislativas alargaram as penalidades aplicáveis ao litigante de má-fé e ao recurso meramente protelatório. Hoje o advogado prestigiado não é mais o esperto, que busca a vitória a qualquer custo, mas sim aquele que demanda com competência, porém com ética, respeitando o seu cliente, o colega ‘ex-adverso’, a parte contrária e principalmente o Juiz, que tem o dever de julgar a causa com rapidez e com justiça.
No ambiente político, ainda encontramos políticos incompetentes e corruptos sendo reeleitos. As brechas na legislação eleitoral e o próprio mecanismo de contagem de votos, através do chamado ‘quociente eleitoral’, permitem que candidatos não desejados se elejam. Nas últimas eleições alguns se beneficiaram dos votos de protesto obtidos pelo deputado Tiririca.
Competir faz parte, porém com ética, com respeito, sem safadeza, sem ‘jeitinho brasileiro’ e sem ‘gambiarras’. Por muitos anos, infelizmente, fez parte da nossa cultura, especialmente do latino americano, comemorar e enaltecer vitórias obtidas com o uso de práticas e condutas condenáveis. As novas gerações estão mudando esses velhos e anacrônicos conceitos.
A luta para se ganhar o ‘jogo’, em qualquer ramo da atividade humana, deve ser uma constante, mas sem o uso de artimanhas, sem espertezas condenáveis. A vitória deve vir com respeito às regras e aos rivais.
Acredito que práticas reprováveis estejam diminuindo a cada dia. Há, sem dúvida, uma reformulação ética que tem contribuído extraordinariamente para a construção de uma sociedade mais justa e solidária, porém, há ainda um caminho longo a ser percorrido. Pais, religiosos, educadores, políticos, empresários, operadores do Direito, publicitários, devem transmitir as novas gerações o conceito de que ganhar é bom, mas sem valer-se de ‘gol de mão’.
Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e professor da Faculdade de Direito de Franca
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