A casa dos artistas


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O prefeito finalmente forneceu aos que lhe pagam o salário uma visão parcial do que pretende fazer para gastar de quatro a cinco milhões de reais do orçamento público num pequeno centro cultural defronte à praça do cemitério, autorizando publicar numa revista os esboços do projeto cujo nome imita um programa de televisão nada educativo. Sua autoritária decisão de construir uma ‘pirâmide’ em homenagem à atriz Regina Duarte, revela-se plenamente como ela é: absurda.

O projeto é um cubo branco com alguns rasgos envidraçados. Imagina-se que deverá ser todo climatizado, implicando em altos custos de manutenção com energia elétrica e condicionamento de ar. Terá três pavimentos. No superior, um pequeno auditório para, no máximo, duzentas pessoas. O principal teatro local tem quatrocentos lugares e não consegue trazer peças de renome por causa da pequena lotação e bilheteria que as inviabiliza economicamente. Situado no último andar, a dificuldade de acesso através de escadaria (que no projeto divulgado não obedece às normas de prevenção contra incêndio e pânico) e único elevador, o tornará de uso reduzido.

No segundo andar estão previstos espaços para exposições, oficinas (possivelmente de artesanato, que a administração atual confunde com arte) e administração burocrática. Não há previsão de espaço para biblioteca, gibiteca ou literatura, apenas mais escadarias para os usuários. No térreo, de um lado está uma pequena área para acesso à Internet, um café minúsculo e todo o tráfego de passagem para os andares superiores, que vai gerar conflitos de uso e muito ruído. Do outro, o destaque do local: os armários para as roupas velhas da atriz global. Detalhe: não há vagas para estacionamento, embora a lei exija.

Todo o discurso do prefeito para justificar sua absurda decisão, ao invés de gastar dinheiro do governo estadual numa casa da cultura de verdade no belíssimo e histórico prédio da AEC, é que ali seria a casa onde nasceu a atriz. Espanto: o projeto não preserva a casa onde ela nasceu! Ela será inteiramente demolida e reconstruída do outro lado, num arremedo (falso) do que foram as casas ‘dos anos cinquenta’, pois será impossível levantar a estrutura do cubo sem demolir tudo. Demonstrando ignorância sobre as questões de patrimônio cultural Sidnei desconheceu a ‘Carta de Veneza’, que estabelece diretrizes para a preservação arquitetônica. Sorte que o Condephat desapareceu em sua gestão.

A fachada do caixote fica mais esdrúxula ainda quando tenta recompor pedaços das fachadas, como um tapume falso ou um cenário, das casas que um dia existiram ali, mais estranho ainda porque o cubo será recuado do tapume falso. Seria até engraçado e kitsch, não fosse trágico, pois a verdade é que esse projeto de Sidnei Rocha é uma acintosa falta de respeito com os artistas de Franca e um desperdício do dinheiro público que sempre faltou para os verdadeiros produtores de cultura da cidade, como Salles Dounner, Cruz, Diego Figueiredo, Erlindo, Derruci e tantos outros.

Mauro Ferreira
Arquiteto e professor da FESP-UEMG

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