‘Xerife do trânsito’ diz que francano é irresponsável


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PONTO DE VISTA - Sérgio Buranelli afirma: “Francano não está preparado para circular numa cidade cuja frota já ultrapassa os 200 mil veículos”
PONTO DE VISTA - Sérgio Buranelli afirma: “Francano não está preparado para circular numa cidade cuja frota já ultrapassa os 200 mil veículos”

Hoje circulam, em média, 215 mil veículos nas ruas e avenidas da cidade. São carros, motos, ônibus e caminhões não só de Franca, mas também de outros 23 municípios da região. Tamanha frota já começa a gerar problemas. Pontos de entroncamento, vias que não suportam mais o volume de tráfego e acidentes com mortes são alguns deles. No ano passado, foram registradas mais de 40 mortes no trânsito.

A responsabilidade de colocar ordem nesse trânsito é do policial militar reformado Sérgio Buranelli, de 57 anos. Em 2005, ainda no primeiro governo de Sidnei Rocha (PSDB), o homem que se dedicou à PM por 30 anos foi convidado a integrar a equipe da Secretaria Municipal de Governo e Cidadania. Três anos depois, uma reforma administrativa na Prefeitura o colocou como responsável pela Secretaria de Segurança e Cidadania, cargo que ele ocupa até hoje.

O “xerife do trânsito” comanda uma equipe de dez pessoas, entre engenheiros e técnicos, que se dedica a estudar soluções para o trânsito da cidade. É dele a palavra final sobre alteração de direção de tráfego nas ruas, instalação de semáforos, proibição de estacionamento e autuações. Buranelli diz que, em Franca, “trânsito é como futebol, todo mundo acha que é técnico e que entende”. Segundo ele, o trânsito em Franca não mata, o que mata é o comportamento do motorista. Sobre o aumento das multas de trânsito, ele diz que, na verdade, o número é até pequeno e corresponde apenas a 2% da frota total, quando o aceitável é até 5% e arremata: “O motorista só muda quando dói no bolso”. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Comércio da Franca - No ano passado, de acordo com dados registrados pelas reportagens do jornal, mais de 40 pessoas morreram em acidentes de trânsito dentro da malha viária urbana de Franca. Como o senhor vê esse número?
Sérgio Buranelli -
Eu vejo isso com muita preocupação. Eu também sou usuário das vias de trânsito da cidade, assim como meus filhos, parentes e amigos. Toda vez que eu tenho a notícia de um acidente com vítima fatal isso me causa uma tristeza muito grande porque este é o meu setor e o meu trabalho. Me sinto um pouco responsável. Mas estamos trabalhando para reverter esses números.

Comércio - O senhor considera esse número de 40 mortes alto para uma cidade como Franca?
Buranelli -
Sim. Claro que é alto. Nenhuma estatística que envolva a morte de pessoas no trânsito é aceitável, independentemente do tamanho da cidade. São vidas que se perderam. Em boa parte dos casos, os acidentes poderiam ter sido evitados se houvesse mais prudência e responsabilidade por parte dos motoristas e pedestres. Eles precisam se conscientizar de que as normas de trânsito existem para a segurança de todos. A partir do momento em que o motorista resolve fazer uma conversão proibida, ele assume o risco de provocar um acidente. Sempre que decide passar no semáforo vermelho, ele está se arriscando a ser atingido por outro veículo. As pessoas precisam entender que, quando o assunto é trânsito, atitudes, às vezes aparentemente inocentes, podem ter consequências sérias e para a vida toda delas e de outras pessoas também.

Comércio - O senhor acredita, então, que os acidentes estão diretamente ligados à postura dos motoristas?
Buranelli -
Sem dúvida nenhuma. Mas não apenas a dos motoristas. Os pedestres também precisam estar mais atentos. A irresponsabilidade em Franca é grande dos dois lados: do pedestre e do motorista.

Comércio - E como mudar esse cenário? Como incutir mais responsabilidade nas pessoas quando o assunto é trânsito?
Buranelli -
Estou trabalhando para mexer com o motorista. Isso porque, na hora em que ele está dirigindo, ele se acha dono de todo o espaço físico. Tenho que mudar o comportamento do motorista através das campanhas.

Comércio - Mas o senhor acredita mesmo que um panfleto ou uma encenação podem mudar o jeito com que um adulto encara o trânsito?
Buranelli -
Pode. As campanhas funcionam, inclusive, nesta última, fizemos um trabalho sobre a faixa de pedestre. Se você for ao Centro da cidade, vai ver os resultados. A maioria dos motoristas para nas faixas para que as pessoas possam atravessar. Claro que ainda tem um ou outro que não obedece, mas a maioria para.

Comércio - Respeito a opinião do senhor, mas a sensação que eu tenho, até mesmo como motorista, é de que as pessoas pegam os panfletos e não leem. Não acredito que um panfleto mude a cabeça de um jovem que tenha acabado de tirar a carta de motorista e esteja louco para acelerar no trânsito. E as pesquisas mostram que a maioria dos acidentes envolve os jovens de 18 a 25 anos.
Buranelli -
Você tem razão em falar isso. A maioria dos acidentes com mortes envolve mesmo os garotos mais jovens, entre 18 e 25 anos. É a época em que eles estão descobrindo o mundo, principalmente, quando pegam uma carta na mão. Já foram feitas reuniões com o pessoal das autoescolas para que reforcem a necessidade de se respeitar as normas. Eu acredito que esse é comportamento dessa nova geração que se acha dona do mundo, acha que não precisa cumprir com a legislação. Temos que focar. Vamos começar a trabalhar com as crianças para que amanhã as estatísticas caiam.

Comércio - Em Franca é muito comum acidentes envolvendo motociclistas. Para esse público, existe alguma ação específica da Secretaria de Segurança?
Buranelli -
Queria, antes de responder, fazer uma pequena observação. Nós, no começo deste ano, fizemos uma reunião com o pessoal da Ciretran (Circunscrição Regional de Trânsito) e da Associação das Auto-escolas. Um motorista para tirar carta de motocicleta aprende a dirigir aqui no pátio do estacionamento do Parque “Fernando Costa”, faz o exame ali e depois ele pega a carta e vai dirigir no trânsito. Na rua depois, esse mesmo motociclista vai ultrapassar os carros pela direita, subir na calçada onde estão os pedestres e cometer uma série de infrações.

Comércio - Em maio deste ano, foram lavradas 4.419 multas, 172% a mais que no mesmo período de 2010. Alguns afirmam que há na cidade uma indústria de multas. A que fatores o senhor atribui esse aumento?
Buranelli -
Primeiro é uma coisa lógica. Se a gente tem um crescimento da frota de veículos circulando pelas ruas de Franca, é natural que o número de autuações também cresça. A fiscalização tende a aumentar sempre. Eu jamais aceito essa fala de indústria de multas. Porque se as autuações foram feitas é porque as infrações existiram. Eu coloco um radar nas avenidas onde a velocidade máxima é 60 km por hora, por que passar a 80, a 100, a 120, a 130? Por que esse desrespeito à sinalização de trânsito? Pela frota existente em Franca e pela quantidade de agentes fiscalizadores, esse número de multas é até pequeno. São poucas multas, não correspondem nem a 2% da frota total. Segundo o Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), até 5% de veículos multados ainda é aceitável. Um fato que também temos que levar em consideração é que a frota circulante em Franca é, na verdade, a de 23 cidades, porque é comum os carros de dezenas de municípios vizinhos virem para cá. Eu gostaria também de dizer que o trânsito em Franca não mata, mas o comportamento do motorista mata. O trânsito está sinalizado e tem fiscalização, mas a decisão de obedecer às normas é da pessoa que está no volante e pode significar a morte dela ou de outras pessoas.

Comércio - A cidade é até bem sinalizada, mas o que adianta ter a sinalização se não há obediência? É comum vermos cenas em Franca de motoristas que não respeitam nada. Somos até conhecidos como maus motoristas...
Buranelli -
O francano não está preparado para circular em uma cidade cuja frota já ultrapassa os 200 mil veículos. Os motoristas de Franca não têm o costume de usar a seta para indicar onde querem virar ou estacionar, não respeitam sequer os cones que a gente às vezes coloca nas ruas para fazer a sinalização.

Comércio - O senhor disse que estão discutindo o assunto. Chegaram a alguma conclusão?
Buranelli -
O que temos percebido é que, para corrigir isso, só mesmo com fiscalização. O motorista só muda quando a coisa dói no bolso. A sensação de não estar sendo fiscalizado gera, às vezes, na cabeça do cidadão o direito de não obedecer às regras. Isso só se corrige com a fiscalização.

Comércio - Em algumas cidades, principalmente, as da Grande São Paulo, os radares são fixos. O motorista é avisado de que há a fiscalização e vê onde ficam os aparelhos. A justificativa dessas cidades é que a fiscalização é meio de prevenção e não de punição. Como o senhor vê isso?
Buranelli -
Cada cidade tem suas particularidades. Em Franca, esse modelo de radares fixos já foi testado no governo do Gilmar Dominici (PT) e se mostrou ineficaz. O motorista diminui a velocidade apenas para passar pelo radar e, no quarteirão seguinte, já está de novo acima do permitido. As avenidas e ruas que recebem os nossos radares têm sinalização avisando que pode haver a fiscalização de velocidade e qual o máximo permitido. Para nós, tecnicamente, esse modelo de radares móveis é o mais eficiente.

Comércio - Há um ano, a Secretaria de Segurança vem implementando diversas mudanças em ruas e avenidas de Franca. Algumas elogiadas e outras bastante criticadas como a da Avenida Santos Dumont, próximo ao Franca Shopping. Como são decididas essas mudanças e quais outras a população pode esperar?
Buranelli -
Trânsito é que nem futebol. Todo mundo acha que é técnico e que entende do assunto. Só que não há como fazer tudo o que todo mundo quer. As medidas são tomadas levando em consideração a segurança da via pública. Lá atrás, não houve planejamento de trânsito, então, convivemos com ruas e regiões em que não há muito o que fazer. É o caso do Centro. Não temos como desapropriar as casas e lojas para poder alargar as ruas e melhorar o fluxo de veículos. Isso ficaria muito caro, então, temos que pensar em alternativas, como a proibição de estacionamentos.

Comércio - Quais são as mudanças em estudo?
Buranelli -
Um dos nossos estudos é sobre a Avenida Dom Pedro, onde o fluxo de carros tem aumentado. Estamos vendo a viabilidade de transformá-la em uma via de mão única. Também queremos instalar mais ondas verdes nas grandes avenidas da cidade, mas, para isso, precisamos de investimentos.  

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