Agora sim, acho que posso


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Passada a euforia do momento alegre, brilhante e barulhento da transição do Velho para o Ano Novo, o pensamento voltou ao ritmo normal. Quer dizer, quase.

Tempinho curto entre a festança, o aviso sobre possível cobrança prestes a ter início e o ligar a televisão para acompanhar a posse da nova Presidente do Brasil. Aí nasceram os medos. E não saberia dizer qual o maior: se o do mistério que envolve as três centenas, algumas dezenas e poucas unidades de dias subsequentes àquele da festa - correspondentes à andança até a próxima mudança de ano; se o da cobrança implacável - por parte dos amigos - dos meus objetivos e determinações para este início da nova década; se o outro, do sentimento que se instalou dentro de cada coração brasileiro no instante em que a Primeira Mulher a comandar oficialmente os destinos do País assumiu seu cargo.

Pensando bem, a comemoração do ‘Ano Novo’ nada mais é que mais um rito de passagem inventado pelo ser humano. Em determinado momento - que só os cientistas podem indicar com exatidão - a Terra começa uma nova volta em torno do Sol: o tal movimento de translação que a gente aprendeu na escola, quando ela ainda era risonha e franca. A tal volta demorará um tempo - 365 dias - extensão definida por também arbitrárias medidas humanas - e como consequência teremos as quatro estações, celebradas musicalmente por Vivaldi. Há milhões de séculos o processo se repete, mas a comemoração mundialmente festiva dessa passagem, acredito, deva ser até recente: apenas dois ou três deles - apostaria. Num mesmo instante o planeta - como um todo - reiniciará a volta. Isso de ser à meia noite aqui, doze horas antes lá, doze horas depois acolá, existe apenas na visão e percepção humanas (falhas, por sinal): essa divisão somente passou a ser válida, quando Greenwich dividiu o mundo em linhas imaginárias. De mais a mais, simplificando, quando a bola entra no gol, entra inteira. Quando a Terra entra na nova órbita, também vai inteira.

Logo que iniciei o novo ciclo, cobrada, fui verificar determinações e metas para o novo ano que, escritas, tomaram importância de documento. Fiquei horrorizada! Pensei serem onze, mas, desdobradas, totalizavam quase quatrocentas, pois uma delas veio acompanhada da expressão ‘todos os dias’. Nem se eu fosse absolutamente constante e firme! Pena, minha lista está repleta de obviedades e clichês, só agora percebo, talvez porque estejam na minha cola exigindo o cumprimento de cada item.

Esmiucei cada parágrafo: tristes conclusões. Pensando bem, que novidade há em evitar fazer comparações entre nós - entre mim, particularmente - e as outras pessoas? Isso não é sábio, muito menos prudente. Já se escreveu, já se falou, já está sacramentada a idiotice em cada um se olhar pelos olhos dos outros: os únicos que não mentem (apenas camuflam, obedientes aos nosso desejos) sobre a imagem refletida no espelho, são os nossos próprios. Buscar informações novas todos os dias? É um dos fatores de crescimento - qualquer criança sabe. Cada ser conhecer melhor suas potencialidades e limitações? Mas desde Sócrates essa busca vem sendo sugerida! Ler mais? Estudar mais? Ver mais filmes? Propósito natural de todo aquele que busca se superar sentimental e intelectualmente. Polidez e delicadeza, no reconhecer a presença do semelhante? E o ‘amar ao próximo’? Isso é antigo...

Temendo ser chamada de inadimplente, reformulo. Diminuir as palavras, talvez aumentar minha responsabilidade. Estão, portanto, anuladas as disposições anteriores. Comprometo-me a partir daqui até o restinho de 2011, tentar: (1) Lembrar que nada muda, se eu não quiser. (2) Ser menos voraz. (3) Sonhar mais... mas com os pés fincados no chão. (Pronto. Agora, acho que consigo!).

PROPÓSITO
Não, nãoão ajudei com meu voto na eleição de Dilma Rousseff mas a partir do 1º de janeiro ela é também minha Presidente. Estarei ombro a ombro com o governo e farei minha parte. Como cidadã irei lhe devotar o maior respeito e, a não ser que ela pise na bola ou seja acometida pela ‘Síndrome dos Monos’ passando a não ver, não falar, não ouvir... confiarei nela.

TIRIRICA
O ex-palhaço Tiririca está feliz. Salário: R$ 26.700; ajuda de custo: R$ 35.053; auxílio-moradia: R$ 3.000; auxílio gabinete: R$ 60.000. Despesa médica pessoal e familiar: ilimitada e internacional (livre escolha de médicos e clínicas). Telefone celular: gasto ilimitado. Bônus anual: mais dois salários, ou o o equivalente a R$ 53.400. Passagens em viagens aéreas: primeira classe ou executiva. Estadia: hotéis 5 estrelas. Reuniões no exterior: dois congressos ou o equivalente todo ano. (Torçamos para nosso papel de palhaços também ter fim).

MARRUCO
Folia de Reis foi festejo obrigatório na infância. Em Uberlândia (MG) acompanhava os cortejos. Tia Fia ensinava, cantando para a gente miúda as letras inventadas pelos foliões, uma delas vetada ao se perceber a indelicadeza de duplo sentido. Na cadência da melodia - a partir da segunda vez que era citada, reconfirmada nas terceira e quarta vezes - dava-se ênfase à última sílaba da palavra que designava o presente que os santos reis ganharam. ‘Santos Reis ganhou um marruco, marruco dos Santos Reis. Marruco dos Santos Reis. Marruco dos Santos Reis...’.

WILDE
O Retrato de Dorian Gray é o único romance de Oscar Wilde. Muitas das citações brilhantes às quais, frequentemente, os escritores recorrem para enriquecer textos sobre o autor, são extraídas dessa obra, onde são questionados valores morais e sociais. Publicado em 1891, foi reeditado inúmeras vezes. Contabiliza vinte versões para teatro ou cinema. Destaco dois filmes: o canadense, de 1945, com George Sanders como Lord Wotton e a recente obra inglesa de 2009, com Colin Firth e Ben Barnes, como Dorian Gray. Imperdíveis, livro e filmes.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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