(Para o Gustavo)
Ele vai fazer cinquenta anos e os preparativos para a festa estão a todo vapor. Será uma festa modesta, dentro do que ele pode oferecer, mas muito caprichada.
Sua parceira contratou uma boa cozinheira, os enfeites foram comprados, os doces encomendados, amigos e parentes convidados. Mas ele está inquieto. E se nada funcionar? Fazer cinquenta anos não é fácil não, pensa.
Muitas coisas podem dar errado. A começar pelos convidados. Se eles vierem. Ultimamente ele está fixado nisso: não virá ninguém. Final de ano, vocês sabem, é muito complicado. Dezembro tinha que ter sessenta dias, é festa a dar com pau. Quem é que vai poder vir em pleno onze de dezembro? E tem muita gente de fora, nunca enfrentarão uma viagem para vir numa simples festa. Mas ele entende, ele perdoa. Afinal, são seus amigos, os amigos perdoam. Ribeirão é distante demais; Sertãozinho, mais ainda. E São Paulo? Uma lonjura só! Tem risco na estrada, estamos numa época de chuva, ele entende que não se desloquem. Entende sim.
Os amigos de Franca também não virão. Líquido que não virão. Sábado é dia complicado, viu? Dia de lavar o carro, levar o cachorro pra passear, ir à feira. Mulher de amigo não gosta de festa no sábado. De manhã, piora. Sábado é dia de faxina! Quem é que quer atrapalhar a faxina alheia?
Também tem as filhas, elas não devem vir. Uma enfrenta o final de semestre na faculdade, a outra encara vários vestibulares. As duas morando fora. Você viria numa festa com isso tudo para fazer? Nunca! As filhas não virão e ele sabe que há coisas mais importantes que essa festa miserável.
Ele tentou não pensar nas irmãs, mas era inevitável. Tão bonitas e tão bem sucedidas, cada qual em seu ramo. Tão atarefadas. Uma executiva, outra psicanalista. Que orgulho! O tempo delas é muito precioso. Nada de festa, então. Tudo em prol do lucro e do existencialismo. Ainda bem que ele compreende.
Ele observa a parceira correndo pra lá a pra cá e desconfiou que ela lhe prepara uma surpresa. Não deveria. Não haverá plateia. Talvez um ou outro gato pingado, mas definitivamente a maioria não virá. Corrigindo: não virá convidado algum. Ele já pisou muito na bola. Insistem em dizer-lhe que é amado, que é querido, mas o cabra já foi o cão, deu muita bola fora. Falou pelos cotovelos e quase sempre de forma inadequada; tomou muitos porres e se enredou em outros tantos vexames; deixou de ser o pai presente que as filhas mereciam; foi covarde e não visitou o amigo naquela doença grave. Fugiu da responsabilidade para com os pais, sobrecarregando ainda mais as irmãs. E teve a separação, tão traumática. Um casamento tão longo com uma pessoa tão bacana! Como ele poderia fazer isso com todo mundo? Como pode decepcionar tanta gente pra ficar com essa aí? É, traiu a todos. Ele é um grande traidor, isso sim.
Traidor, mas conformado. Assolado pela culpa, porém resignado. Quer castigo maior?
Imagina como será a festa. As bexigas penduradas, as mesas arrumadas, as flores em plena harmonia. Somente ele, sentado em uma cadeira, a parceira na outra (Quixote e Dulcinéia?), a cozinheira e sua ajudante masturbando as panelas, uma cerveja aberta, o Chico tocando ao fundo. Ele rei, a namorada rainha, as contratadas seu séquito, a vida passando pelos olhos. Brotou-lhe uma vontade imensa, incontrolável de chorar.
* * *
O dia onze de dezembro amanheceu escandalosamente bonito. As pessoas foram chegando, até o ponto em que todas as mesas se ocuparam. Vieram todos, e mais alguns, das mais variadas cidades. Amigos, amigos dos amigos, parentes, filhas,pais enteados. O pequeno salão ficou lotado.
Exceto a ausência de convidados, montes de coisas deram errado: certa hora faltou cerveja, o bolo atraiu mosquitos, a cozinheira errou a mão no tempero. Mas ele estava irremediavelmente feliz.. Feliz, feliz, feliz
Sentou-se ao lado da mãe, e, com um sorriso nos lábios, pensou no que a parceira vivia dizendo, que o homem não é movido nem pelo amor nem pelo ódio, e sim pela culpa. Acrescentou a essa ideia o fato de que o homem também é amparado pela felicidade. Provavelmente guiado pelo jogo de um e de outro.
Desejou com fúria viver mais cinquenta anos sem solidão.
Claudia Filipin
Leitora
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