A menininha estava triste. E também estava chateada. Brigara com o irmão mais velho, levara bronca da mãe, ficara de castigo. Com seis anos de idade tinha dado vontade de ser grande, de fazer o que desse na cabeça, de não depender de ninguém, de ser poderosa...
Ela gritara que queria ser dona da própria vida.
Idéias de gente adulta haviam acometido a garotinha.
Foi quando ela chegou junto ao presépio que o pai montara numa mesinha de madeira na sala. Ela gostava bastante daquelas pecinhas, daquelas pessoinhas tão bonitinhas, todas em seus devidos lugares.
Puxou uma cadeira e subiu, para ver mais de perto.
Teve uma idéia.
Já que também era pequena e a mãe a chamava de gente miúda, segurou-se com firmeza na beirada da mesinha, tomou coragem e, com um pulo, entrou no presépio.
Caiu perto de uma ovelhinha muito branca, que assustou-se e ficou mais branca ainda. O pastor fez cara feia. Ela pediu desculpas e foi andando, pisando nas pedrinhas brancas.
Olhou em volta: a casa estava enorme. Viu sua avó passando pela sala, uma vovó gigante, que nem percebeu que ela estava ali.
Lá na frente, três homens levavam presentes para o menino Jesus. Os três reis magos, com suas roupas luxuosas. Ela teve bastante vontade de ver o bebê, mas não tinha presente nenhum. Nem nas mãos, nem nos bolsos, nem no coraçãozinho.
Sentou-se no chão e começou a chorar bem quietinha.
Quando os reis se afastaram um pouco, o pai do menino a viu.
- Manuela. Vem aqui!
Ela ficou parada. Então o homem se aproximou, pegou nas mãozinhas dela.
- Vamos lá.
Ela continuou chorando, dessa vez menos quietinha:
- Eu não tenho presente...
- O bebê não precisa de presente. Leva sua tristeza para ele.
Manuela foi e finalmente descobriu como era um presépio visto de perto.
Era um lugar pobre, muito pobre. E cheirava mal. Cheiro dos animais, da manjedoura, da própria pobreza.
Mas mesmo naquela precariedade, o bebezinho sorria. Parecia até que ele estava mais feliz em vê-la do que em ganhar todos aqueles presentes caros.
Ela também sorriu no meio do cheiro ruim.
Pela primeira vez na vida, Manuela sentiu bastante alegria em ser pequena.
Experimentou uma irresistível felicidade em ser menor do que os outros.
Depois de brincar com o bebê, despediu-se, andou devagar sobre as pedrinhas brancas, chegou no finalzinho na mesa e, com um pequeno impulso, saiu do presépio.
Téo Lopes
Escritor
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