A coisa empacou e por mais que ele tentasse não conseguia desarrancar de dentro o caldeirão gigantesco de emoções, sensações, aflições. E aquilo tudo contido provocava-lhe urticária, tiques-nervosos, úlcera, mutismo. Não falava mais, não articulava pensamento. Passava horas sem fim olhando o vazio. Se perguntado, emita um gutural ruído. Dizem alguns que, às vezes, um leve esboço de sorriso aparecia naqueles lábios murchos. Murchos também eram os gestos, braços inertes caídos junto ao corpo. Comia ou bebia quando lhe ofereciam e por sempre estar assim as pessoas foram se afastando, desanimando. Incomunicável, fechou-se em sua bolha. Passava dias sem provar nada. Emagrecia a olhos vistos.
E como não havia mudanças porque ele também não queria mudanças, se comprazia de seu próprio fel. Foi ficando, deixado, esquecido...
Parecia que a historia terminaria aqui se o dinamismo da vida permitisse estagnação.
Na calçada passava os dias e também as noites. Foi então que um cachorrinho vira-latas aproximou-se, cheirou, ergueu a patinha e fez xixi no pé do inerte ser. O homem ergueu-se, a calça molhada provocou-lhe um curto-circuito e bem no alto de sua cabeça uma luz se acendeu.
Se voltou para os seus não se sabe, mas é o poste que mais irradia luz na rua escura perto de minha casa.
Talvez estejamos precisando de um pouco do imponderável para alargarmos nossa capacidade de acender o nosso próprio brilho e sermos farol para os semelhantes, agora que o ano se inicia e depois, depois e depois...
Marina Garcia Garcia
Pedagoga e professora de Português
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