Conheço pouco o Rio de Janeiro. Mas a arte que vem de lá sempre me atraiu, a começar pelo humor do Pasquim, a música de Beth Carvalho, as composições de João Bosco e Aldir Blanc, a literatura de Sérgio Santana e Rubem Fonseca, tantos que vou direto ao principal: a arquitetura de Affonso Reidy e Oscar Niemeyer.
A chegada de ônibus ao Rio é a imagem do caos urbano, na Gamboa. Uma rodoviária decadente numa região antiga e caindo aos pedaços, longe do metrô. Pouco antes, na avenida Brasil, é possível vislumbrar após o palácio mourisco de Manguinhos, o imponente conjunto Pedregulho, de Reidy, que eu queria visitar. Ficamos em Copacabana, reduto de milhares de velhinhos abusados como eu, que caminham pelas calçadas desenhadas por Burle Marx extasiados com a beleza exuberante da paisagem.
Havia duas visitas obrigatórias no roteiro: a casa de Oscar Niemeyer, na estrada das Canoas, e o conjunto Pedregulho, em São Cristóvão, palco de Central do Brasil, onde Fernanda Montenegro vivia escrevendo as cartas que são o centro do filme. Alugamos um táxi, na agradável companhia da Tânia Figueiredo (minha coleguinha no IETC) que, junto com o marido Fred, foram cicerones inigualáveis na cidade maravilhosa, com seu trânsito infernal e seu metrô insuficiente. Aliás, descobri que Franca tem metrô de superfície faz tempo: lá, ônibus é metrô de superfície. Só que o congestionamento não deixa nada andar. Copa e Olimpíadas serão uma bela encrenca para os cariocas.
O conjunto Pedregulho fica perto do estádio de São Januário, do Vasco da Gama, região de favelas. No caminho, o campinho do São Cristovão, time antigo do Rio que revelou Ronalducho para o futebol. O impacto visual da obra foi obscurecido pelo seu estado de conservação, tal o bagaço em que se encontra, literalmente aos pedaços. É desolador ver uma obra prima da arquitetura brasileira, com painéis de Portinari, neste estado. Já a casa do Oscar, numa belíssima região de matas e morros, está pousada numa encosta pedregosa. O arquiteto, em sua genialidade, deixou-as intactas até dentro da casa, uma grande laje em forma de ameba envolvida pela vegetação. Obras de arte originais de Le Corbusier e Ceschiatti complementam a beleza de sua arquitetura, recomendo a visita a quem for ao Rio.
À noite, Tânia e Fred nos levaram ao restaurante Astor em Ipanema. Quando decido ir ao banheiro, quem vai na mesma direção? O Jaguar, um dos melhores cartunistas do Pasquim, com sua indefectível boina. Pois é, posso me pavonear que já mijei ao lado do Jaguar. Melhor ainda, chegou o Chico (ou seria o Paulo?) Caruso, com um copo de uísque na mão. Beber uísque no banheiro, só podia acontecer no Rio e ser coisa desses sensacionais humoristas. Quero voltar.
Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor
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