Mudanças


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Ano Novo. Vida Nova. Expectativas de transformações.

Há pessoas que adoram mudanças e esperam ansiosamente a passagem do ano para desejá-las com mais ardor e entusiasmo. Gostam das novidades sejam elas quais forem. Gostam do novo, do inusitado, do surpreendente.

Eu, ao contrário, sou um conservador. Detesto mudanças. Gosto da rotina, do dia a dia, do corriqueiro. Detesto a desordem. Gosto das coisas nos seus devidos lugares, isto é, nos lugares de sempre como a escova de dentes, os chinelos, a calça, a camisa, os móveis e todos os demais utensílios.

Logo eu que abomino as mudanças, mudei. Mudei e estou completamente perdido. Mais, muito mais perdido do que cego em tiroteio é cego em casa nova. Já levei umas 20 caneladas, umas 30 barrigadas, umas 10 cabeçadas. Bati os braços e as mãos em inúmeros objetos pontiagudos. Estou totalmente desorientado e inseguro. Estou sem rumo, sem direção, sem destino. Obedeço às ordens de comando das líderes da mudança:

-Pare aí. Não siga em frente. Não pise. Sente-se e fique quieto. Cuidado, abaixe a cabeça! Vá para a esquerda. Agora, vire para a direita. Siga pelo centro que é mais seguro.

Diante de tantos comandos, acabo ficando paralisado.

Procuro um canto e ali fico absolutamente isolado. Não falo nada, não pergunto nada e nem reclamo de nada. Fico escutando o entra e sai, a algazarra, as mesas sendo arrastadas, as caixas sendo empilhadas.

É, prezado leitor, neste fim de ano resolvi mudar. Foi uma mudança física, uma simples transferência de domicílio. Porém, estou atordoado. Perdi as minhas referências cotidianas. Um estranho silêncio envolve-me. Não ouço os sons, os ruídos e as vozes costumeiras e totalmente identificáveis como, por exemplo, a Dona Carminha dando instruções para a empregada, a Dona Maria Lúcia abrindo a porta da garagem e dando partida no carro, a saudação calorosa do amigo Tatão. Não sei bem onde estou e como vou me adaptar. O certo é que mudei. Deixei para trás uma morada de 30 anos e aconselho ao leitor que não faça o mesmo, principalmente se já passou dos 60.

Neste Ano Novo desejo a todos os meus leitores e leitoras que nada mude, que as coisas boas permaneçam. Não há nada pior do que o passar do tempo.

Chiachiri Filho
Historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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