Reflexão


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Toda a minha vida sempre esnobei a ideia de que um dia eu irei morrer. Óbvio que isso não significava a ausência de entendimento de que a morte é a única realidade concreta, palpável e absoluta da vida. Somente um insano desconhece a falibilidade da vida. Portanto, esnobava a morte por enxergá-la muito distante, coisa com a qual eu não deveria me preocupar ou mesmo me ocupar.

Lógico que eu tinha coisas mais urgentes e importantes a fazer ao invés de ficar pensando na morte. Vivia como se não fosse morrer nunca. Quando somos jovens, temos uma ideia - ainda que inconsciente - de que somos capazes de superar tudo e todos, inclusive a própria morte. Achamo-nos onipotentes por mais que isso, racionalmente, possa parecer absurdo.

Algumas instituições com forte conteúdo esotérico procuram sempre colocar em destaque aos seus seguidores, símbolos da mortalidade. Eles se prestam a levá-los à reflexão da condição de seres mortais, se não no plano espiritual, seguramente no material ou físico. Essa permanente lembrança da mortalidade do ser humano faz com que nos tornemos mais reflexivos, mais espiritualizados e mais fraternos.

Todas as grandes personalidades que desembarcaram em nosso planeta, especialmente aquelas que desenvolveram com mais intensidade o amor universal, a fraternidade desinteressada e a prevalência do espírito sobre a matéria, tiveram como inspiração maior para as suas admiráveis condutas e feitos a presença marcante da falibilidade do homem físico, não obstante todas - ou quase todas elas - nutrirem intimamente a certeza de que, como bem afirmou Santa Terezinha: ‘Não morro, entro na vida’. O espírito, obviamente, é eterno.

Reconheço, no entanto, que quando completei 50 anos, minha preocupação com a morte eclodiu intensamente. Confesso que aconteceu sem que eu entendesse exatamente o motivo da transformação. Aquilo que estava latente veio à tona. Passei a adotar posturas preservacionistas que eram até então inimagináveis. Lembro-me que no dia do meu aniversário de 50 anos uma amiga, de forma jocosa, disse-me: ‘Setímio, você chegou à meia idade’. Imediatamente retorqui: quantas pessoas você conhece ou conheceu com 100 anos? Ora, evidente que chegar aos 50 significa percorrer mais de 2/3 do caminho, pois a expectativa de vida dos brasileiros está em torno de 72 anos.

Percebi, pois, que a minha ‘bacia de jabuticabas’, antes lotada, já não continha a mesma quantidade de outrora e que, portanto, na esteira do esplendoroso texto O tempo e as jabuticabas, de Rubem Alves – que transcrevi quinta-feira passada aqui neste espaço –, devia consumir as restantes com bastante calma, saboreando-as uma a uma.

Imagino que é preciso viver o resto desta minha existência com mais intensidade mas de maneira mais prazerosa; construir relações pessoais sólidas e sentindo o paladar das minhas escolhas não mais consumindo-as sem qualquer critério. Ser mais seletivo e procurar realizar tarefas que possam me aproximar do Criador, procurando fazer coisas que O agradem.

Quando o momento da passagem chegar, quem sabe, ‘muitos venham a chorar e somente eu sorrir’.

Setímio Salerno Miguel
Advogado empresarial e Professor da Faculdade de Direito de Franca

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