“Terra de pessoas ilustres”. A frase que dá as boas vindas a quem chega à pequena Igaçaba, distrito de Pedregulho, se refere ao ex-governador Orestes Quércia e à sua família e traduz um pouco de como o político e empresário é conhecido pelos moradores. O vilarejo e a cidade de Pedregulho amanheceram de luto ontem. Quércia morreu aos 72 anos, no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Sua morte deixou um clima de comoção entre os moradores, familiares, amigos, funcionários e prefeitos das cidades da região (leia mais ao lado).
O prefeito Dirceu Pólo (PSDB) decretou luto oficial de três dias em Pedregulho. Dirceu e Quércia estreitaram relações em 1978, quando eram integrantes do antigo MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Em 1982, durante sua gestão à frente da Prefeitura, Dirceu trabalhou pela campanha do amigo. Candidato a vice-governador de São Paulo, Quércia conseguiu, segundo o prefeito, 95% dos votos dos eleitores da cidade.
A gratidão e reconhecimento do povo têm sua razão de ser. Ao longo da sua trajetória na política, Quércia transformou Pedregulho. Foi responsável, entre outras coisas, pela construção e pavimentação das principais vicinais; pela implantação do hospital, que leva o nome de sua mãe - Isaura Quércia; por escolas e pela desapropriação do Parque Estadual Furnas de Bom Jesus, o 6º maior do Estado de São Paulo. Igaçaba, local onde ele nasceu, ganhou uma Unidade de Saúde e transformou-se em um vilarejo charmoso. “Ele deixou muitas grandes obras”, disse Pólo.
Como empresário, Quércia investiu muito na região. Tinha, pelo menos, 12 fazendas de gado e de plantação de café. Uma delas é a fazenda Nossa Senhora Aparecida com mais de cinco milhões de pés de café em uma área de 1,2 mil alqueires. Apenas nesta fazenda, trabalham cerca de cem pessoas. Romildo Batista de Freitas é um dos funcionários da fazenda e descreveu o patrão como uma pessoa muito simples. “Apesar de grande empresário e político, tratava igual desde os simples aos mais ricos”.
A simplicidade parecia ser uma forte característica do político que foi herdada do pai, Otávio Quércia. A casa onde ele nasceu permanece do mesmo jeito. Os cinco pequenos cômodos -dois quartos, cozinha, sala e banheiro - ainda não têm lajota. Lá, hoje, reside Maria Aparecida Marangoni, 75, amiga de infância do ex-governador. Há 20 anos, o pai de Quércia cedeu a casa para ela morar e nunca cobrou nada por isso. O filho seguiu a vontade do pai e, pelo menos a cada três anos, visitava a amiga. “Fomos criados juntos, brincávamos e sujávamos muito. É como se ele fosse do meu sangue”, disse Aparecida.
A madrasta Angelina Baptista Quércia, 72, definiu Quércia como pessoa de “alma boa”. Emocionada, falou pouco, mas disse que o considerava como filho. Um filho preocupado e amoroso. “Ele tinha um carisma que era só dele. Pedregulho vai sentir demais. Foi uma grande perda”.
Um pouco do carinho dos moradores de Pedregulho, Orestes sentiu há dois anos. Durante uma inauguração, ele recebeu do funcionário público Antônio Carmo Jacinto um texto em que resumia a eterna gratidão do povo da cidade. “Nossa terra ficou respeitada. Mudou para muito melhor. Obrigado por ser filho de Pedregulho”, dizia uma dos trechos da carta entregue a Quércia e que o fez chorar.
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