O técnico Hélio Rubens Garcia não está habituado a ter seu trabalho contestado. E tem resultados para justificar isso. Como treinador é o maior vencedor do Nacional com títulos conquistados por Franca, Vasco da Gama e Uberlândia. Seu currículo ainda ostenta taças da Liga Sul-Americana e inúmeros títulos internacionais como Sul-Americanos, Pan-Americanos, dois vices campeonatos mundiais de clubes e diversos estaduais.
Nem mesmo este rico currículo evitou as eliminações do Vivo/Franca nos dois campeonatos que disputou nesta temporada. Desde a eliminação na Liga, internautas do Portal GCN enviam questionamentos ao treinador, abordando os motivos pelos quais a equipe naufragou na disputa. Ontem, em entrevista exclusiva, Hélio Rubens respondeu aos questionamentos e apontou motivos que levaram sua equipe a não brigar pelos títulos dos campeonatos citados.
O trabalho começou com a diretoria, comandada por Luís Carlos Teixeira, que contratou cinco novos jogadores para as competições. O ala Dedé e o armador Fernando Penna vieram do Paulistano, o pivô Willian Drudi deixou o Minas Tênis, de Belo Horizonte, para voltar ao basquete francano, o ala norte-americano Maurice Spillers, que estava no basquetebol argentino, veio como solução para os rebotes juntamente com seu compatriota Chas McFarland. Este acabou dispensado por deficiência técnica. Para o lugar de McFarland foi contratado o pivô Marques Lewis, que deve estrear em janeiro.
A pressão começou já na montagem do elenco. Uma grande expectativa foi gerada e a equipe acabou com o peso de ter de disputar e conquistar os títulos da Liga Sul-Americana, Campeonato Paulista, Jogos Abertos do Interior e NBB 2011. Destas competições, apenas o NBB está em curso. O time francano foi eliminado da Liga Sul-Americana no hexagonal final, acabou desclassificado do Campeonato Paulista na semifinal e hoje divide a terceira colocação no NBB 2010/2011 com o Joinville, somando três vitórias e uma derrota. O time ganhou os Jogos Abertos, mas a duras penas.
Vejas a entrevista em vídeos:
Parte 1
Parte 2
INVERDADES
Com a contratação de cinco novos jogadores, criou-se em Franca o conceito de que nosso time é imbatível, que tem o melhor orçamento do basquete brasileiro e obrigação de ser campeão de tudo que disputa. Isso não é verdade, primeiro porque nosso orçamento não é o maior de todos os clubes. Na nossa frente estão Pinheiros, Brasília, Uberlândia, Flamengo, São José dos Campos, todos com um orçamento maior que o nosso. Estes times são mais completos que o nosso, com excelentes armadores, alas e pivôs, inclusive pivôs cinco que nós não temos.
PREPARO FÍSICO
O time não está sem preparo físico ou sem pernas como muitos apontam. O que houve foi desgaste muscular em razão do acúmulo de jogos. Nós temos o professor Valdir Barbante como coordenador do preparo físico e o time fez uma ótima pré-temporada como há vários anos não fazia. É quase desumano um time em 14 dias jogar nove jogos como foi nosso caso nos últimos dias. O atleta precisa de tempo para se recompor fisicamente e não houve isso. Assim, o jogador acaba sentido, e muito, o cansaço físico. De uma forma ou de outra isso reflete negativamente no resultado de um jogo.
JOVENS OU VELHOS
Na minha ótica, o jogador não tem que permanecer em quadra mais tempo porque é mais jovem ou mais velho. Eu obedeço a uma regra que estabelece que fica em quadra mais tempo o jogador que está melhor naquela partida. Não troco o mais novo pelo mais velho ou vice-versa. Eu troco o pior pelo melhor. Porque são mais novos o Dedé (à esq.), Vitor Benite (à esq.) ou o Penna não vão jogar quarenta minutos. Fica no time quem estiver melhor, jovem ou experiente. Eu preciso revezar para não ter o desgaste físico, agora na reta final do paulista chegamos a jogar oito partidas em seis dias.
COBRANÇA PRÓPRIA
Eu tenho que mudar algumas coisas em mim. Preciso elogiar mais e criticar menos. Meu defeito e ser muito crítico e cobrar muito. Às vezes, isso não é bom. Preciso mudar, pois tem muitos jogadores que crescem mais com os elogios do que com críticas e infelizmente não tenho feito isso. Nosso time é formado por um grupo muito crítico e todos nós ficamos decepcionados com a eliminação da Liga Sul-Americana e do Campeonato Paulista. Para mim, foram as duas maiores decepções que sofri em mais de 50 anos de basquete.
PIVÔ CINCO
As derrotas que tivemos foram em função de não termos um pivô cinco. Com um jogador que joga de costas para a cesta a defesa adversária é obrigada a recuar e isso facilita os arremessos de média e longa distância. Fora este fator ainda tem os rebotes pois o pivô cinco é colocado justamente para garantir rebotes de defesa e ataque. Nós estamos tentando suprir a ausência deste pivô improvisando Rogério, Spillers, Ricardo e Drudi nesta função. Mas nenhum deles sabe jogar de costa para a cesta. Com um pivô cinco poderíamos não ter sido eliminados do Paulista e da Liga. Agora, vamos tentar Marques Lewis (foto esquerda).
APOSENTADORIA
Absolutamente não penso em parar (de trabalhar). Eu tenho certeza que as críticas recebidas nos últimos dias foram realizadas por uma minoria. Todos têm o direito de criticar, mas infelizmente estas críticas foram feitas com base em um conceito errado, ou seja, o de que se não ganhou está tudo errado e nada serve. Para mim as coisas vão mudar, o time vai ganhar e estes críticos vão se arrepender. Eu me sinto muito bem. Estou com 70 anos, mas com vigor de 50 e vou continuar trabalhando para o basquete francano, porque faço aquilo que amo e enquanto me sentir bem vou continuar.
APUROS
Nós tivemos momentos muito desagradáveis em Franca nos últimos jogos. Os jogadores do time foram vaiados entrando em quadra, saíram para o intervalo sob vaias dos nossos próprios torcedores, houve vaias quando estavam nos vestiários e até com a bola em jogo após erros em jogadas. Isto tudo por conta de alguns torcedores mais exaltados, mais radicais que acham que somos obrigados a ganhar sempre. Este conceito de que apenas ganhar é o que importa tem que mudar. Em nenhum setor de atividade ninguém é obrigado só a triunfar, muito menos no esporte.
SALÁRIOS
Sabe que eu gostaria de ganhar o que muita gente fala por aí. Dizem até que ganho R$ 60 mil por mês. Humildemente até que eu merecia, tenho muitas propostas para ganhar até mais do que R$ 60 mil. Na verdade ganho menos do que muitos jogadores que estão atuando no Brasil e até de alguns atletas do nosso time. Podem perguntar para a diretoria do Franca Basquete. Nosso time não tem tanto dinheiro assim. Teve muitos exemplos de jogadores que não vieram jogar aqui porque receberam propostas nossas e acertaram com outros times pelo dobro do que havíamos oferecido.
SUBSTITUTO
Todos os técnicos que foram formados em Franca têm condições de me suceder no comando do basquete francano quando eu parar. Há também jogadores que podem ser grandes treinadores. O Helinho (à esquerda), por exemplo, tem uma liderança natural. É capitão do time, possui envolvimento e um comprometimento com o basquete. O mesmo posso dizer do Rogério. O importante disso tudo é que Franca mostra que títulos são consequência do trabalho desenvolvido por estes treinadores e que hoje estão sendo mostrados em todo o Brasil.
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