Everton de Paula
Acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 42 anos
O cinturão de caubói
Era muito, muito criança e ainda morava na rua onde nascera a Dr. Júlio Cardoso, em frente à Pharmácia Orestes. Acreditava seriamente em Papai Noel, a quem para o vindouro Natal pedira um cinturão de duplos revólveres da Estrela, imitando o modelo usado pelo herói das telas e dos quadrinhos Roy Rogers.
Na manhã de 25 de dezembro acordei ansioso e lá na sala, perto do presépio armado sob uma arcada de cipreste, o embrulho colorido. Dentro dele o presente dos sonhos. E já vinha com espoletas que, arranjadas no mecanismo do revólver de brinquedo, imitavam debilmente o som de um tiro.
Ainda de pijama, coloquei o cinturão e saí para o quintal acabando com a vida miserável de bandidos imaginários. A cena haveria de se repetir pelas férias de janeiro e fevereiro.
No reinício das aulas, era costume, na hora do recreio, as crianças levarem para o pátio os brinquedos para serem mostrados aos colegas e colocar mais lenha no fogo das brincadeiras. Bancos imobiliários, jogos de estratégia, blocos de madeira para se montarem casas e palácios, luvas de boxe para crianças, a bola de cobertão (como havia!), jogo de varetas e o meu cinturão de duplos revólveres do Roy Rogers. Brilhavam ao sol de março, assim como os olhos do menino embevecido pelo brinquedo e pelas duras pelejas que o herói haveria de enfrentar no pátio de terra da escola transformado em faroeste de filmes americanos.
Na saída, marcaram um joguinho de futebol com uma bola novinha no campinho da Praça João Mendes. Coloquei meu cinturão cuidadosamente ao pé de uma das traves. Dei duas, três corridas, alguns chutões e empurrões. No meio da partida, busquei com o olhar meu cinturão ao pé da trave. Não estava mais lá. Nem pude acreditar. Perguntei ao goleiro se ele havia visto alguém pegar os meus revólveres. Acho que ele sabia de alguma coisa, porque ameaçou chorar, mas não disse nada que me ajudasse.
O jogo terminava indiferente à minha aflição. Quem chorava agora era eu. O que iria dizer em casa? Doía no peito saber que àquele momento alguém estaria todo orgulhoso desfilando com o “meu” cinturão, roubado assim em plena infância. Decepção e tristeza invadiram meu coraçãozinho de criança. Com pouco tempo de uso pelo dono, os revólveres agora completavam toda a imaginação de um caubói que em vez do herói Roy Rogers, deveria ser um bandido daqueles!
A caneta-tinteiro
Agora já não era tão criança, porque terminava o curso ginasial. Ganhei, já no mês de dezembro, um cobiçadíssimo presente, espécie de relíquia familiar, ignora-se lá com que vida pregressa: nada menos que a caneta-tinteiro dourada, marca Broadway, trazida sempre fechada numa gaveta de criado-mudo. Ganhei porque iria receber o certificado de conclusão de curso e, ainda mais, estava-se nas vésperas do Natal. Dois coelhos mortos com uma só canetada.
De posse daquele reluzente objeto de meu antigo desejo, passei caol nela e a enchi de tinta Parker, comprada na Livraria do Commercio. O que escrever de marcante com ela, se as longas férias mal haviam começado?
Então se descortina oportunidade ímpar: um sobrinho e afilhado de minha mãe, meu primo portanto, iria ordenar-se padre e enviou à madrinha especial convite. Daqueles tão especiais que o melhor era mesmo não ir, ainda mais que a ordenação seria em distante cidade. E assim surgiu a distinta idéia de se passar um telegrama, gesto protocolar muito fino e um tanto caro para os padrões familiares.
Difícil, quando não impossível, explicar às pessoas que usam e abusam do email, orkut, MSN, facebook que naqueles recuados anos telegrama era chique e de raro emprego. Ia-se à agência do correio, na Praça 9 de Julho, recebia-se o formulário adequado que se preenchia de próprio punho. Por aí se pode avaliar a raridade do uso do telegrama, a não ser em situações excepcionais.
Fui ao Correio a pedido de minha mãe escrever o tal telegrama de cumprimentos e felicitações.
Quando retornei a minha casa, fui mostrar à mãe o recibo, prova cabal do cumprimento de tão nobre tarefa que fiz com minha reluzente caneta-tinteiro Broadway, tive um arrepio: no mesmo bolso em que guardara o recibo, deveria estar também a caneta, banhada a ouro, como me assegurara o meu pai. Inúteis todas as buscas, a refeitura cuidadosa do trajeto percorrido. Nunca mais se teve notícia da caneta, antes de tudo um presente emblemático, uma espécie de iniciação na vida de adolescente.
Não se tocou mais no assunto em casa evidente sinal de que a perda havia sido muito sentida por meu pai e, principalmente, pelo amargurado ginasiano.
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