'O sol é quente para quem nele fica'


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Há frases que nos fertilizam: entram em nosso coração pelos olhos, se as lemos, ou pelos ouvidos, se as escutamos. Têm poder seminal e força persuasiva. Também são inspiradoras. Funcionam como um insight ou uma epifania. Parecem relâmpagos que abrem primeiro uma fresta, imediatamente ampliada para iluminar espaços interiores que permaneciam na escuridão. Soam como constatação. Nem todo escritor é frasista. Mas, com certeza, todo bom frasista é escritor.

“O sol é quente para quem nele fica”, a frase escolhida por Maria Luiza Salomão para abrir seu primeiro livro, A alegria possível, lançado no dia 4 de dezembro, é exemplo de habilidade em reunir conhecimento, percepção e experiência em poucas e definitivas palavras. Outros exemplos: “O chão da alma é o afeto”; “Hoje é o passado do amanhã”; “Nossa alma pratica alquimias”; “Parar de pensar é parar de sentir”; “A mãe é o nosso primeiro personagem”; “Deixar-se render é a alforria da alma”. São algumas das muitas que grifei ao ler a obra que traz 29 ensaios e um poema.

No prefácio que escrevi para o livro, classifiquei como pertencentes àquele gênero os textos em prosa, considerando que representam discurso livre sobre tema específico. No caso, tudo aquilo que não faz parte apenas das aparências, que não se submete à linearidade. Maria Luiza trata de afetos, sentimentos, movimentos de alma cuja complexidade busca desvelar num estilo repleto de imagens sugestivas, registros sinestésicos, aliterações simbólicas, metáforas potentes. Sua bagagem léxica, seu domínio sintático, a criatividade que vem à tona nos relatos ou nas reflexões mostram ao leitor seu gosto e respeito pela linguagem, que procura construir da forma mais próxima possível de sua maneira de ver ou sentir. Ela é a artista ciosa do seu meio de expressão, para quem uma vírgula mal colocada, um adjetivo dúbio, um verbo impreciso são empecilhos à ponte que como escritora pretende criar para chegar ao leitor.

Dos mistérios da germinação da alegria, palavra-chave do livro e pela qual se deve guiar o leitor, nos fala a autora sob formas diversas em todos os textos, como se fossem variações sobre tema. Mesmo quando a palavra alegria não aparece, ela está movimentando o discurso. De jeito específico, nos textos de abertura, A alegria difícil, e de fechamento, Volutas, onde é afastada por completo a ideia comum, muito difundida, que se tem de que alegria é felicidade ou euforia: “Alegria é a condição de brincar, de reinventar meus rumos, de tomar a Grande Decisão, ser comigo, ser em mim, única maneira de ser-com-o outro, ou ser no outro, a quem reconheço como igualmente diferente de mim. Ou diferentemente igual”, diz Maria Luiza em bem escolhida primeira pessoa.

No posfácio, Eny Miranda, que associa os textos da autora a alguns motivos de Clarice Lispector, afirma em certo momento: “Sinto, em Maria Luiza, o mesmo desejo de alcançar e captar - em si mesma e no Outro; no tempo, no espaço, no espaço-tempo de si mesma e do Outro -o triz, a centelha de liberdade, de intimidade, de alegria... que faísca súbita e se apaga... deixando na alma uma luz atemporal que poetas, romancistas, ensaístas, filósofos, psicanalistas... perseguidores de estados de ânimo, esquadrinhadores das diversas manifestações da mente e do espírito humanos - da Vida -captam ou tentam captar; expõem ou tentam expor, de formas não necessariamente similares”.

Na orelha, Regina Bastianini, em forma de carta, diz à autora: “Acho que você escolheu primorosamente os textos e a sequência deles para a composição do livro, organizando-os de modo a fundamentar seu conceito de valores basilares na construção e preservação da integridade da pessoa: a Liberdade, a Intimidade e a Alegria, que não são fins, mas meios, caminhos a serem percorridos/construídos por cada um com as pedras e as flores de cada passo.”

As flores e as pedras usadas como metáfora por Regina complementam de forma poética a frase de Maria Luiza que pincei como título a essa resenha. A alegria possível sugere que o caminho a ser construído por cada um pede um querer, demanda ao caminhante que deseje o sol que possa aquecê-lo, e aceite os seus raios e não os evite nem os ignore, muito menos deles se afaste enquanto transpõe as pedras e admira as flores. Alegria é pura energia, essa que nos habita ainda quando nos sentimos abatidos. Alegria é, na verdade, um dos sinônimos para ânimo, para alma, para a beleza da possibilidade de renascer. Mas não é fácil alcançá-la, ao contrário, explica a escritora “é (...) difícil porque pede uma atitude maior: permitir o acesso do outro ao meu coração (...) Está na Bíblia: “se queres salvar tua alma, haverás de perdê-la. Perdendo-a, terás tua alma de volta.” Não será esta, afinal, a mais genuína mensagem do Natal?


VIDA INTERIOR

Maria Luiza Salomão

Maria Luiza Salomão é o nome literário de Maria Luiza Lana Matos Salomão. Natural de Ituverava, filha de fazendeiro e mãe professora, teve a mesma educação recebida pelas meninas e adolescentes de classe média nos anos 70. Ao terminar o colegial foi para Ribeirão Preto, onde se formou psicóloga pela USP. Depois, num processo que durou anos de empenho, estudo e análise, obteve o título de Psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, filiada à IPA, Associação Psicanalítica Internacional, da qual também é hoje membro. Trabalhou como educadora, antes de se dedicar inteiramente à clínica.

Embora tenha produzido textos criativos desde que foi alfabetizada, só começou a publicá-los a partir de 2000, e logo passou a ter periodicidade no jornal Comércio da Franca, primeiro no Caderno de Domingo, depois no Nossas Letras. Seus temas, voltados para a dinâmica da vida interior, sustentam-se num discurso literário cuja autoria se revela em construções singulares.

Maria Luiza Salomão, que pertence à Academia Francana de Letras, já participou de antologias publicadas na cidade. A alegria possível é seu livro de estreia. Nele diz no final que não pretende fechar suas palavras: “antes penso em abri-las, meu fim é o começo de uma possível conversa.” Por ter captado este desejo, a artista plástica Atalie Rodrigues Alves fez capa simbólica e linda: com uma mandala. Princípio que é fim, fim que é princípio, como é da pertinência do círculo.


SERVIÇO
Título: A alegria possível
Autora: Maria Luiza Salomão
Editora: Ribeirão Gráfica e Editora
Capa: Atalie Rodrigues Alves
Onde comprar: nas livrarias da cidade
Preço: R$ 15

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