Chiachiri Filho
Historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
Costumávamos andar em torno do lago do Castelinho: eu, o Prof. Ibrahim, o Filipão, o Daniel... Andávamos e conversávamos, conversávamos e andávamos. Discutíamos política, filosofia, banalidades. Enfim, fazíamos exercício físico e higiene mental.
Foi numa dessas antevésperas de Natal. Eu comentava com o Prof. Ibrahim sobre as festividades natalinas e a necessidade de comprar um cordeiro para a ceia. Nesse momento passava por nós o Dr. Sebastião que, ao ouvir a conversa, parou-nos um instante e disse-me:
– Não se preocupe com o carneiro. Tenho uma pequena criação e faço questão de presenteá-lo com um bem gordinho.
O Dr. Sebastião, homem de fino trato e grande generosidade, virou-se também para o Dr. Ibrahim e falou:
– Vou-lhe mandar um carneirinho também. O Sr. quer?
– Ibrahim, muito educado e não querendo abusar da boa vontade do Dr. Sebastião, recusou a oferta com as seguintes palavras:
– Muito obrigado, Dr. Muito obrigado. O meu já está encomendado há mais de uma semana.
Após os meus agradecimentos e a delicada recusa do Prof. Ibrahim, o médico amigo apressou o seu passo e distanciou-se de nós.
Certificando-se de que ninguém mais nos ouviria, Ibrahim foi incisivo:
– Metade desse carneiro me pertence. Viu!
E eu não tive dúvidas em retrucar:
– Viu nada! Não vou lhe dar metade coisa nenhuma. Você não merece nem sequer um pernil.Quem mandou você recusar o presente? “
Ibrahim, em tom conciliatório, justificou-se:
– Sou um homem educado. Não poderia abusar da generosidade do Dr. Sebastião.
Olhei bem para o meu amigo Ibrahim e não tive dúvidas em atacar:
– Educado?! Educado às minhas custas, não é mesmo?
– Terminamos a nossa caminhada entre pedidos incessantes e recusas terminantes.
Contudo, para não deixar o Prof. Ibrahim sem uma lembrança desse acontecimento chistoso, enviei-lhe um cartão de Natal em que um manso cordeirinho lançava ternos olhares para um lago azul rodeado de pinheiros e ciprestes , com os seguintes dizeres:
– Se não podes comê-lo, pelo menos podes admirá-lo.
Feliz Natal.
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