Um cordeiro para o Natal


| Tempo de leitura: 2 min

Chiachiri Filho
Historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

Costumávamos andar em torno do lago do Castelinho: eu, o Prof. Ibrahim, o Filipão, o Daniel... Andávamos e conversávamos, conversávamos e andávamos. Discutíamos política, filosofia, banalidades. Enfim, fazíamos exercício físico e higiene mental.

Foi numa dessas antevésperas de Natal. Eu comentava com o Prof. Ibrahim sobre as festividades natalinas e a necessidade de comprar um cordeiro para a ceia. Nesse momento passava por nós o Dr. Sebastião que, ao ouvir a conversa, parou-nos um instante e disse-me:

– Não se preocupe com o carneiro. Tenho uma pequena criação e faço questão de presenteá-lo com um bem gordinho.

O Dr. Sebastião, homem de fino trato e grande generosidade, virou-se também para o Dr. Ibrahim e falou:

– Vou-lhe mandar um carneirinho também. O Sr. quer?

– Ibrahim, muito educado e não querendo abusar da boa vontade do Dr. Sebastião, recusou a oferta com as seguintes palavras:

– Muito obrigado, Dr. Muito obrigado. O meu já está encomendado há mais de uma semana.

Após os meus agradecimentos e a delicada recusa do Prof. Ibrahim, o médico amigo apressou o seu passo e distanciou-se de nós.

Certificando-se de que ninguém mais nos ouviria, Ibrahim foi incisivo:

– Metade desse carneiro me pertence. Viu!

E eu não tive dúvidas em retrucar:

– Viu nada! Não vou lhe dar metade coisa nenhuma. Você não merece nem sequer um pernil.Quem mandou você recusar o presente? “

Ibrahim, em tom conciliatório, justificou-se:

– Sou um homem educado. Não poderia abusar da generosidade do Dr. Sebastião.

Olhei bem para o meu amigo Ibrahim e não tive dúvidas em atacar:

– Educado?! Educado às minhas custas, não é mesmo?

– Terminamos a nossa caminhada entre pedidos incessantes e recusas terminantes.

Contudo, para não deixar o Prof. Ibrahim sem uma lembrança desse acontecimento chistoso, enviei-lhe um cartão de Natal em que um manso cordeirinho lançava ternos olhares para um lago azul rodeado de pinheiros e ciprestes , com os seguintes dizeres:

– Se não podes comê-lo, pelo menos podes admirá-lo.

Feliz Natal.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários