A questão não deixa de ser preocupante: o exame do Cremesp (Conselho Regional de Medicina de São Paulo) reprovou 68% dos inscritos em sua segunda fase. De acordo com o coordenador da prova, o cardiologista Bráulio Lula Filho, 85% dos candidatos não conseguiram distinguir pericardite aguda do infarto agudo e da angina instável. Se a situação apresentada no exame tivesse ocorrido num hospital, esses futuros médicos poderiam colocar em risco a vida de alguns pacientes. O pior é que se trata de uma pergunta fácil para um médico: ‘os eletrocardiogramas dessas doenças são muito diferentes, não dá para confundir’, confirma Bráulio. Os formandos também tiveram dificuldade para diagnosticar tuberculose e sífilis. A amostra de alunos foi menor e menos qualificada neste ano: apenas 23% dos formandos do Estado - a maioria de escolas privadas -, diferentemente de outros anos, quando a aprovação chegava a 90%. Alunos da Unicamp e de Medicina da USP em Ribeirão Preto não prestaram o exame. A prova não é obrigatória mas, mesmo assim, o conselho avalia que o exame mostra uma formação médica com problemas no Estado.
Nas duas etapas do exame, a área com pior desempenho foi clínica geral. O órgão sustenta que suas questões têm apenas o mínimo que se espera de um estudante de Medicina e que a má formação pode gerar futuros erros médicos. Não por acaso, o índice de falhas e enganos em hospitais, clínicas e prontos-socorros em todo o País continua alto. Afinal, a má formação e o desconhecimento de diagnósticos corriqueiros permitem que pacientes se tornem verdadeiras cobaias. Os órgãos de comunicação do País são pródigos em notícias onde as falhas dos profissionais médicos enlutam famílias, por conta da adoção de procedimentos equivocados e desaconselháveis. A simples prescrição de um medicamento inadequado também pode levar à morte um paciente.
Para que a situação não se torne ainda mais catastrófica, o Cremesp defende a criação de um exame nacional, unificado e obrigatório para alunos e universidades. O formando só poderia ser habilitado se passasse nesse exame. Do contrário, repetiria um ano de curso. Cid Carvalhaes, presidente da Federação Nacional dos Médicos, diz que já é um consenso entre as entidades a necessidade de uma avaliação. Mas a complexidade torna difícil definir e implementar esse tipo de exame compulsório. Porém, algo precisa ser feito. Por conta da necessidade de que os erros sejam reduzidos - afinal, o médico trabalha com a vida de seus pacientes -, torna-se urgente uma solução que dê mais segurança ao médico em seu dia a dia, permitindo-lhe diagnósticos mais precisos e prescrições com um mínimo de erros. Somente desta forma é que o paciente poderá consultar-se sem medo de que se torne mais um número nas estatísticas de erros e enganos que continuam ceifando vidas e deixando sequelas irrecuperáveis nas unidades médicas não só de
São Paulo mas também em todo o Brasil.
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