Não. Não vou falar das esquálidas que as agências de modelos dizem que podem ganhar milhões de dólares anuais nas passarelas do mundo. Quero, isto sim, falar das “magrelas”, apelido carinhoso dos veículos movidos a feijão que precisam voltar a rodar em grande número por aí, por questão de saúde pública e cidadania
Já fui um bicicleteiro. Tive uma Monark vermelha, comprada com o suor de meus primeiros anos de trabalho. Tinha lá meus 11, 12 anos – sim, sou contrário à proibição do trabalho do menor, prevista no Estatuto da Criança e Adolescente e solenemente defendida pelo estimado Promotor Augusto Soares de Arruda Neto, porque esse é seu papel. Divagando, penso que também ele, no mais fundo de seu íntimo, deve torcer para que um dia a lei mude e empurre, para baixo, a idade com a qual jovens possam se beneficiar do valor do trabalho e se tornem cidadãos melhores – e trabalhava com meus primeiros patrões, Walter Anawatte (que me deu o emprego), Oliveiro Diniz da Silva, Olintho Santos Novais e Paulo Sérgio de Guimarães Cardoso em escritório de advocacia e gerenciamento de imóveis. Eu fazia cobranças de alugueres a pé, quando era próximo e, de ônibus, quando era longe.
Havia muita segurança. Um determinado dia, chamei “Seu” Domingos e “Dona” Juraci e lhes comuniquei: “vou comprar uma bicicleta”. Incentivaram-me. A cidade era calma. Havia muitos veículos mas podia-se saber que quem dirigia, respeitava leis. Sei que um frio na espinha percorreu minha mãe. “Meu filho andando por ai, em meio a esse trânsito doido”, como me confessou. Coisa de mãe preocupada. E de mãe profetisa. Mal sabia ela que o tal trânsito que imaginava capaz de “me pegar”, se tornaria balbúrdia só muitos anos mais tarde.
Fui à Casa Adélia Borges. Escolhi a “magrela”. Encomendei. Com o aval de meus pais, um mês depois, recebido o primeiro salário, enfrentei o crediário e sai da loja “motorista”. É piloto? É, mas eu me sentia “motorista”. O motor era eu e quem manda em meu “motor” sou eu, sacou?
Passei a fazer minhas cobranças de bicicleta. O serviço rendia. Percorria o percurso com mais agilidade e o tempo que passei a ter, usava para ler a Revista dos Tribunais”. Penso que ganhei algum traquejo para textos, vocabulário e sinonímia por causa daquelas leituras intermináveis e pela insistência de algumas professores do ensino primário (hoje é fundamental...), como Maria Marques e Noêmia Bordignon. Troquei as revistas por obras fundamentais da Literatura Portuguesa quando encontrei Assuero Quadri Prestes, que me obrigava a ler 2 livros por mês. Ainda andava de bicicleta. Do xingamento do princípio, tornei-o referencial em minha vida. Ler é, sempre, viajar sem sair do lugar.
Volto à magrela. Fui à Prefeitura, quando tomei posse dela, para registrá-la. Sim. Bicicleta tinha que ter placa e registro. A fiscalização sobre a forma com que me conduzia com ela, obedecendo ou não sinalização, mãos de direção e etc, era exercida por minha consciência. O que não sabia, aprendi na marra. No terceiro dia de uso, dirigia-me ao trabalho situado onde hoje está o Santander da Praça Nossa da Conceição. Ia pela Major Claudiano e, ao passar pelas imediações do Relógio do Sol, em frente ao escritório da Viação Cometa, eis que um garotinho sai correndo detrás do ônibus “Dinossauro” que estava estacionado ali e... pumba! Fomos eu, ele e minha Monark pro chão. Ralados, sobrevivemos e aprendemos. Hoje, de carro, desacelero quando tenho obstáculo que me impeça de ver quem vem lá. Ele, certamente, aprendeu a olhar antes de atravessar a rua. A vida era assim. Ensinava. E a gente aprendia.
1 VEÍCULO PARA 1,2 HABITANTES!
Hoje, há nesta cidade 1 veículo automotivo para cada 1,2 habitantes (180 mil veículos - Detran/SP e 318 mil habitantes - Censo 2010). Dentre os condutores, muito mais gente muito ruim de volante do que bons. Os leitores do Comércio vivem reclamando da péssima educação dos motoristas francanos. E há grande número de pregadores que a bicicleta precisa voltar, mesmo e apesar das várias colinas (já foram só três) que essa cidade tem. Tenho alguns amigos que querem iniciar movimento nesse sentido. Não são jovens mas são muito saudáveis porque continuam bicicleteiros – que o dicionário diz que são ciclistas – capazes de ir a qualquer lugar pedalando suas magrelas (hoje muito melhores por causas das tais catracas, que aliviam a quantidade de arroz e feijão que a gente precisa consumir para poder pedalar...). Pregam que andar de bicicleta pode fazer com que o trânsito da cidade – claro que devagar, muito devagar – possa parar de matar, deixar as pessoas menos estressadas, ampliar a qualidade de vida. E pregam também que, paralelamente à multiplicação das bicicletas, não seja preciso fazer rodízio de carros que sei, de fonte muito confiável, começa-se a pensar por aqui.
POLÍTICA DE CICLOVIAS?
O Prefeito Sidnei Rocha, ao que parece, concorda. Determinou que quer ver a cidade repleta de ciclovias. Havia uma e, dentro em pouco, já serão duas. Garante que outras virão. Tomara que dê certo. Se as pessoas resolverem reconquistar o espaço público desbravando-o com bicicletas, sobreviveremos todos, a exemplo do garoto que “trombou” comigo e certamente está por aí, firme e forte. E talvez melhoremos também como seres humanos que, de outra forma, continuaremos caminhando inexoravelmente rumo ao stress definitivo, aquele que se não mata, aleija.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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