Esqueletos


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A construção das cidades brasileiras é resultado da ação governamental e, principalmente, da iniciativa privada, de grandes transações imobiliárias a pequenas edículas nos quintais das moradias dos trabalhadores. A arquitetura e o urbanismo brasileiros, que foram tão importantes na discussão cultural dos anos 1950 e 60, desapareceu totalmente das cidades, restrita a obras pontuais. Franca não é exceção, a má qualidade de sua arquitetura e urbanismo vai tornando-a igual a tantas outras cidades, sem qualquer característica que a distinga das demais. Em parte, a responsabilidade é do poder público, que executa obras de baixa qualidade arquitetônica.

Por isso, não é de se estranhar a informação vinda da Prefeitura que a antiga estrutura destinada a um hotel próximo ao Poliesportivo possa vir a ser desapropriado para abrigar a Secretaria Municipal de Educação. Nada mais pode ser considerado espantoso num governo que preferiu trocar por asfalto a água que falta na cidade e desistiu de receber recursos federais subsidiados do PAC para pavimentação de bairros periféricos. Ou seja, não há recursos para a contrapartida em obras duradouras, mas poderá haver para desapropriações despropositadas ou que ficam abandonadas, como do museu daquela artista que tem medo do Lula.

O gasto que de dinheiro público que a Prefeitura fez para análise estrutural num prédio particular do antigo ‘esqueleto’ já foi um dispêndio, no mínimo, esquisito. A secretária de Educação afirma que não foi consultada sobre o assunto. Ou seja, como pode servir à secretaria de educação um prédio cuja estrutura e tecnologia, com vãos reduzidos (cheio de pilares) para um setor burocrático e que demanda escritórios integrados pela informática? Acresça-se a isso os altos custos de recuperação da estrutura de concreto exposta a anos de intempéries e sua adaptação à lei de acessibilidade, o número de vagas de estacionamento exigidas para funcionários e visitantes para perceber a bobagem que será feita se a desapropriação ocorrer.

Para eliminar um problema de propriedade privada, criará outro, de custo enorme para o poder público. Bastaria instituir o IPTU progressivo, previsto no Plano Diretor, que esse problema já estaria resolvido há muito tempo. Se for para criar despesas para a prefeitura, porque ela não assume o esqueleto do prédio pertencente ao governo estadual, paralisado desde 1995, na Avenida Ademar Polo?

Pelo menos, não haveria gastos com desapropriação, os pavimentos são livres e adequados para escritórios e para o serviço público. E daria uma destinação adequada a um vergonhoso desperdício de recursos públicos já investidos naquele prédio, que se arrasta irresolvido por quatro governos tucanos de São Paulo.

Mauro Ferreira
Doutor em Arquitetura pela USP e professor da FESP-UEMG.

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