Difícil tarefa


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Há um ano, achando que não seria tão difícil e confiante por uma experiência anterior, meti-me a escrever a biografia de uma admirável mulher francana. Já sabia: seria trabalhoso; queimaria alguns neurônios dos poucos utilizáveis que restam; suaria em bicas, atrás de informações

Não seria o primeiro trabalho desse tipo: quando ainda na Faculdade de Filosofia de Franca, para a professora Ana Maria, cuja cadeira era alguma coisa pomposa tipo Técnicas e Pesquisas, tive a incumbência, de biografar um vulto histórico da cidade. Sorteada, coube-me exemplar e fantástica figura de antigamente, inovadora e inteligente fora de padrão. Pergunta daqui, investiga dali, descobri que, já idoso, ele teria mostrado sinais de evidente desequilíbrio mental – empregados mais antigos da fazenda, cuja sede ele construiu com cuidado, aplicando conhecimentos revolucionários de engenharia obtidos na Sorbonne, onde estudara – contaram com naturalidade aquelas passagens, sem a menor intenção de aviltar ou diminuir a imagem do “doutor”, como eles o chamavam. Contaram que ele conversava com alguém imaginário, que andava nu pelo roseiral, que isso, que aquilo. No entanto, quando comentei a informação com os parentes, eles ficaram fulos: “Imagine! ele morreu absolutamente lúcido, era um homem notável, inteligentíssimo!”, como se fosse demérito ou irregular ou indecoroso e obsceno ter alguém com algum tipo de problema mental na família. Lição não seguida: ao esquadrinhar a vida de alguém, só pergunte das belezuras, das feiúras, jamais...

Minha biografada está viva, lúcida, trabalha, produz e considera seus quase oitenta anos apenas uma referência da certidão de nascimento: comecei por entrevistá-la. Gravadorzinho entre nós, cutuquei aqui, cutuquei ali, induzindo-a a falar. E ela falou. Da infância, da juventude, dos casamentos, dos filhos, da carreira, dos sonhos, das desilusões, esperanças, desejos, realizações, mágoas, dores e das alegrias. Da sua vida, enfim. Não sonegou uma só informação ou resposta e só interrompia o discurso para me alertar, ao fazer um comentário paralelo, a meu pedido: olha, isso você não publica, não... Não, o livro não está escrito... ainda, mas já está “quase pronto” na minha cabeça – digo quase porque falta algum recheio. Já fiz muitas entrevistas com pessoas direta e indiretamente ligadas a ela, preciso fazer outras tantas.

Falar e escrever sobre qualquer alguém é complicado. Publicar, então, é demonstração de coragem e ousadia. Estou com medo, reconheço. Estou buscando imparcialidade, alguma neutralidade que estou longe de possuir: quando olho – situação ou pessoa – com amor, minha visão se distorce e aprovo tudo. Da mesma forma, quando analiso com ódio, incorro no perigo de condenar. Se isso ocorre no cotidiano, isso se repete quando escrevo... Se acontece com textos, com pessoas, então, nem se fala.

Medo à parte, a experiência é única: entrar no íntimo de alguém – sem qualquer laço de parentesco – para transcrever e tornar público o que lhe foi confiado na intimidade. Há que se ter cuidado: palavras ficam gravadas e quem as lê, interpreta com a emoção: onde deveria estar a compaixão. Por exemplo, quem odeia enxerga o oposto; onde há uma brincadeira, lê-se uma acusação; e toda aquela delicadeza que se imaginou permear um determinado trecho, vira uma arma ofensiva e provoca efeito absolutamente contrário. De qualquer forma, o exercício de parar, ouvir, transcrever tomando cuidado para não interpretar, escolher imagens para ilustrar uma página, para valorizar determinados sentimentos, fez-me praticar o velho “coloque-se no lugar do outro” que as religões mandam e poucos religiosos obedecem. Não penso em publicar uma obra-prima, se bem que toda vida humana possa ser considerada como tal. Tenho esperança de que, ao ler a história dessa mulher, aquele que um dia a atacou, possa repensar o motivo da ofensa: se foi inveja das suas conquistas ou da garra, do pique, da determinação que ela demonstrou ter desde muito pequena. Vamos ver.

Cony
Carlos Heitor Cony foi intimado a escrever sua autobiografia. Pois escreveu de forma curiosamente original: um delicioso livro onde estão algumas de suas crônicas já publicadas, outras inéditas. Sem ordem cronológica, as datas se misturam, de repente ele é o menino, na página seguinte, o escritor consagrado, e aí o jovem. Chama-se Eu, aos pedaços - Memórias. Agora, sim estou acabando de ler, o que vai demorar, porque interrompo a leitura para saborear melhor cada depoimento.

Exposição
No prédio da Fiesp – na avenida Paulista, em São Paulo, a exposição NATALTEC apresenta trabalhos produzidos pelas escolas do Senai. Franca está lá, através do projeto Uma Cesta de Natal, uma clara alusão ao basquete. Tem placar eletrônico, tem “torcida organizada”, tem imagens de Franca ladeando o pequeno espaço. Objetivo: “mostrar o lado esportivo, alegre, criativo e tecnológico do Natal”. A cada arremesso, os participantes do “jogo”, experimentam os sentimentos a serem dedicados ao próximo, diariamente. Dizem, foi emocionante a participação de um cadeirante. E até Paulo Skaf já jogou.

Novela
Uma inusitada solidão me fez ligar a televisão e ver um capítulo da novela Passione. Fora a chatice de ver os artistas falando portugaliano: uma frase em italiano, seguida da mesma frase imediatamente traduzida, o que me impressionou foi o grau das maldades mostradas no enredo. Dizem, a vida imita a arte. Logo, logo teremos uma leva de pedófilos agindo, aliciadores de menores totalmente impunes, mulheres maquiavélicas urdindo vinganças, maldade triunfando. Uma verdadeira aula de atitudes politicamente incorretas para todas as idades.

Natal
Mais uma semana e todo mundo enlouquecerá de vez. Trânsito, correria, listas de presentes na mão, festas programadas. Viro um camaleão se, ao menos em 40 por cento das casas onde acontecerão ceias e reuniões do dia 24, convidados e anfitriões – que se dizem religiosos – se lembrarão da verdadeira comemoração da data.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br

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