Escambo, segundo o Aurélio, é ‘troca de bens e serviços sem intermediação do dinheiro’. Ao longo dos tempos, perdeu importância, mas no início do século passado, era a forma mais usual de comércio entre as pessoas.
Com o avanço das tecnologias, foi definhando. Hoje, recomeça a ganhar força. Explico: é público e notório que os produtos de consumo duráveis (geladeira, fogões, celulares, televisores) têm durabilidade cada vez menor. Uma geladeira fabricada em 1970, como a que minha avó possui até hoje, continua intacta. Várias, fabricadas em 2004, hoje não funcionam mais. O custo para consertar não é interessante do ponto de vista comercial.
Os veículos fabricados nas décadas de 70 e 80 rodam pelas estradas até hoje, enquanto que muitos, fabricados no início deste milênio estão comprometidos de tal forma que permanecem encostados em garagens ou oficinas porque não têm mínimas condições de trafegar. O Luiz Neto, expert saudosista, que me corrija.
Uma das explicações para este fenômeno é a voracidade do capitalismo. O mercado (fabricantes) percebeu que se o produto tem uma durabilidade menor, há uma rotatividade maior nas compras e nas relações comerciais, o que aumenta a lucratividade. Bingo! Quanto mais vezes o consumidor troca seu produto por um novo, maior a lucratividade! O celular é o exemplo clássico: são feitos para durarem no máximo um ano. Quase se sucateiam. Ou então, basta uma nova tecnologia – mesmo que desnecessária – lá vai o consumidor atrás de novo aparelho.
Alguns doutrinadores consumeristas chamam essa fase de transformações econômicas, de pós-modernismo. Eu, humildemente, prefiro um neologismo: ‘retrocessonismo’. Porque é um retrocesso, mesmo.
Vivi, recentemente, situação que me remeteu ao passado. Um ventilador estragou em casa. Fui até meu amigo Brito Som, já que não havia mais garantia que cobrisse o conserto. Levei um susto com o orçamento: R$ 40,00. Fiquei intrigado. Pesquisei na internet o preço do ventilador novo idêntico ao meu: R$ 59! De imediato decidi não consertá-lo, até porque você acaba perdendo a confiança no aparelho consertado. E, para um novo, faltavam apenas R$ 19. Tentei vendê-lo ao Brito porque, ele sim, teria como ganhar dinheiro com o ventilador. Sem sucesso. Resolvi então dá-lo, por incrível que pareça, ao Brito, porque o ventilador estragado comigo não teria nenhuma utilidade, mas com o Brito poderia render frutos. Repassei-o gratuitamente.
Três semanas depois, meu aparelho microondas estragou também. De novo no Brito, orçamento: R$ 120,00. Preço do novo: R$ 180,00. Ora, o diagnóstico era o mesmo do ventilador, mas resolvi praticar escambo. Vi ‘meu’ ventilador devidamente consertado exposto à venda e pedi a troca do ventilador consertado pelo microondas estragado. Consegui. Peguei meu ventilador novo em troca do microondas danificado.
É um absurdo que nesta sociedade pós-moderna as empresas se preocupem em diminuir a qualidade de seus produtos e nem sequer fornecem peças de reposição a preços razoáveis para que conservemos os produtos durante muitos anos. Essa atitude do fabricante de peças de reposição contraria frontalmente o Código de Defesa do Consumidor. Primeiro, porque restringe o conserto do produto e força o consumidor a comprar um novo. Segundo, porque o artigo 32 diz: os fabricantes têm o dever de assegurar a oferta de peças de reposição enquanto não cessar a fabricação, e depois de cessada, por período razoável de tempo. Ora, os meus produtos estragados continuam em franca fabricação e as peças de reposição teriam de ser acessíveis e a um preço razoável.
Resta ao consumidor brigar. Que não sejamos forçados a comprar um produto novo, quando o velho estraga. Muitas vezes, somos tratados com desdém pelas empresas mas, neste Natal, reflita sobre os produtos que pretende adquirir, se realmente durarão pelos próximos quarenta anos como a geladeira da minha avó.
ALTA INADIMPLÊNCIA
Pesquisa realizada pela Serasa Experian detectou que a inadimplência dos consumidores registrada em novembro, que subiu 3,5% em relação a outubro, foi a maior para meses de novembro desde o ano de 2005. Esta foi a sétima alta mensal seguida. Na comparação com o mesmo período do ano passado, a inadimplência cresceu 23,2% - a maior entre os meses de novembro desde 2001. O movimento de alta da inadimplência pode ser creditado ao maior endividamento dos consumidores, principalmente por conta do Dia da Criança. Cuidado no Natal. Caso contrário, você vai perder o fôlego financeiro em 2011.
REMÉDIO MAIS BARATO
No último final de semana fui comprar um remédio e fiquei abismado com a diferença de preços entre o nome tradicional (Novalgina) e o genérico: Dipirona Sódica. O primeiro custava R$ 14,00 e o segundo R$ 2,00. Ora, são sete vezes mais! Uma aberração preço tão diferente para um mesmo medicamento, para mesmo efeito. Ainda bem que a população assimilou muito bem a eficácia dos genéricos. Óbvio que comprei o genérico.
MAIS REMÉDIO
Pesquisa feita pela Fundação Procon de São Paulo identificou diferenças de preço de até 1.181,52% entre medicamentos genéricos e de até 122,23% entre os remédios com marcas comerciais. O levantamento foi realizado de 3 a 5 de novembro em 15 drogarias do município de São Paulo. O Procon-SP constatou também que, em média, os medicamentos genéricos são 52,41% mais baratos que os com marcas comerciais. Entre os medicamentos genéricos, a maior diferença constatada foi no preço do Diclofenaco Sódico, com 20 comprimidos de 50 miligramas (mg). O maior preço encontrado foi R$ 11,79, enquanto o menor foi de R$ 0,92. A diferença em valor absoluto é de R$ 10,87, ou 1.181,52%. Antes da compra do remédio é imprescindível que o consumidor realize ampla pesquisa de preços no mercado. O sítio eletrônico da ANVISA é www.anvisa.gov.br e pode ajudá-lo.
Denílson Carvalho
Advogado, ex-coordenador do Procon Franca - denilson@comerciodafranca.com.br
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