O varal da carroça


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O tráfego pode ser considerado hoje o maior executor de pessoas inocentes. Não confundir com tráfico, porque a comercialização ilegal de serviços ou produtos sempre provocou (e provoca) mortes entre os participantes de negócios escusos. A história está repleta de exemplos.

Voltando ao trânsito, na semana passada um motociclista bateu em uma carroça, de frente. Um dos varais (varal não tem nada a ver com varão, que significa homem adulto. Essa palavra saiu impropriamente na imprensa nacional, designando uma parte da carruagem) da carroça quase perfurou o peito do condutor da moto, que não resistiu, morrendo logo após ser socorrido.

Qualquer morte é triste. Mas morrer com o peito furado pelo varal de uma carroça é mais triste ainda. O fato em si vem provar que o comportamento para se conduzir um veículo motorizado precisa ser revisto. Pela foto, o motociclista parecia ser um bom sujeito. Além disso, era casado e tinha filhos. Falhou, no entanto, na utilização da motocicleta pois nem possuía a devida habilitação.

De mais a mais, carroça quase não provoca acidente de trânsito. Pela natureza do animal que lhe fornece tração, anda devagar. Dificilmente ganha velocidade. Mesmo com o cavalo andando, o movimento poderia ser considerado nulo no momento em que o motociclista bateu o peito na ponta do varal. O impacto verdadeiro foi ocasionado pelo impulso da motocicleta.

Bons tempos aqueles em que as carroças de aluguel faziam ponto nos mais diversos locais da cidade. Um dos principais estacionamentos ficava no início da Av. Major Nicácio, no fundo da Escola ‘Torquato Caleiro’. Naquele quarteirão havia um chafariz que servia de bebedouro para os gordos cavalos. Os carroceiros tratavam bem dos animais. Capim não era problema. Bastava cortar no buracão, ao lado do Pestalozzi.

Na Estação havia outro grande ponto de carroças. O chafariz ficava debaixo de enormes árvores no canteiro central da Rua Frei Germano. Este bebedouro ainda está na Praça Ana Nicácio, no mesmo rumo em que se encontrava antes, só que seco. A Vigilância Sanitária não permite água limpa parada. Por isso, os cavalos bebem água somente nas casas dos carroceiros.

Além desses dois pontos de carroças de aluguel havia outros na Praça das Bandeiras, no entroncamento da Rua Floriano Peixoto com a Estevão Leão Bourroul e outros menores. Apenas o ponto da Estação resistiu ao tempo. Três carroceiros ainda estacionam seus veículos de tração animal na Praça Ana Nicácio todos os dias, à espera de fregueses para pequenos fretes. Na época em que o tráfego na cidade era feito basicamente por carroças, já existia motor (agora virou moto), mas ninguém morria no trânsito. O varal até podia se quebrar, devido ao excesso de peso. Mesmo assim, no máximo, o carroceiro apenas levava uns arranhões por causa da queda. Nada mais que isso!

Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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