Edvaldo José da Costa, 48 anos, vive uma situação inusitada. Precisa se desdobrar para cumprir suas tarefas políticas em duas cidades: Franca e Cristais Paulista. De um lado, adota o estilo conciliador e não mede esforços para defender os interesses do governo. Do outro, é o que exerce forte oposição ao administrador. Não raro, tem de incorporar as distintas atribuições no mesmo dia e em horários próximos. Apesar das dificuldades, os resultados têm sido satisfatórios.
Edvaldo é casado e pai de dois filhos. Formado em administração de empresas pela Unifran e pós-graduado em administração pública, com especialidade em gerenciamento de cidades pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado) de São Paulo. Há 20 anos, sua rotina está ligada à política, sobretudo ao PSDB.
Ele foi assessor parlamentar do deputado Roberto Engler (PSDB) por 14 anos. Em 2007, desligou-se da equipe do tucano e passou a ocupar cargo de confiança na Prefeitura de Franca. Foi quando teve início um dos papéis que exerce. Como assessor legislativo do prefeito Sidnei Rocha (PSDB), é o responsável por fazer a ponte entre a administração e a bancada de apoio ao governo na Câmara Municipal. Acompanha as votações de perto, dá dicas e tira dúvidas dos vereadores. Quando os aliados estão em dúvida, pretendem falar com algum secretário ou fazer pedidos, é ele que procuram. Sua missão é fazer com que os projetos de interesse do Executivo sejam aprovados. Sua atuação não é bem vista pelos vereadores de oposição, que o acusam de interferir nas votações.
O assessor mora em Cristais Paulista desde 2001. Há dois anos, candidatou-se a vereador pelo PSDB e foi o quinto mais votado. Começava ali a sua segunda atribuição. Edvaldo faz oposição sistemática ao prefeito Hélio Kondo (PMDB). Já fez mais de 15 denúncias contra o prefeito no Ministério Público e conseguiu aprovar, recentemente, a criação de uma CEI (Comissão Especial de Inquérito) para apurar suposto sucateamento no Setor de Saúde do vizinho município. Hélio Kondo teria confidenciado a amigos que chegou a pensar em deixar a administração por causa de tanta pressão.
Nas últimas eleições em outubro deste ano, Edvaldo foi coordenador das campanhas do PSDB em 23 cidades da região. Ele também assessorou o então candidato a deputado federal pelo partido, Tirso Meirelles, mas decidiu deixá-lo. Na semana passada, durante intervalo de votação na Câmara de Franca, recebeu o Comércio da Franca e contou detalhes de sua atribulada agenda. Saiba nas linhas a seguir como ele consegue ser oposição e situação ao mesmo tempo, porque deixou a campanha de Tirso e se disputar a Prefeitura de Cristais em 2012 faz parte de seu plano político.
Comércio da Franca - Qual definição eu devo usar para tratar o senhor: vereador ou assessor parlamentar?
Edvaldo Costa - Na realidade, o cargo que eu tenho um prazo determinado é o de vereador, que se encerra no dia 31 de dezembro de 2012. Já o cargo de diretor de apoio parlamentar do prefeito Sidnei Rocha pode se encerrar a qualquer momento. Então, acho que pode me tratar como vereador em Cristais Paulista.
Comércio - O que dá mais prazer. Ser vereador ou assessor do prefeito?
Edvaldo Costa - Não tenho com dividir isto, mesmo porque são cidades diferentes. Tenho o maior prazer do mundo em trabalhar como assessor do Sidnei Rocha. É uma pessoa com quem tenho aprendido muito. A gente tem podido fazer um trabalho de ajuda para ele também. Acho que é fantástico trabalhar com o Sidnei, a gente sente o resultado de sua administração. Agora, como vereador, também é gratificante. Estou podendo fazer um trabalho voltado, principalmente, para as pessoas mais necessitadas. Tenho apresentado projetos que beneficiam esta parcela da população. Tenho recebido o reconhecimento nas ruas. É gratificante das duas formas: tanto ser vereador em Cristais, onde a população reconhece nosso trabalho, quanto como ser assessor do prefeito.
Comércio - Não há impedimento legal em ser vereador em uma cidade e assessorar a prefeitura de outro município?
Edvaldo Costa - Legalmente não. Até porque não há compatibilidade de horário. Em Cristais, as sessões da Câmara acontecem a cada 15 dias no período noturno, diferentemente do meu período de trabalho em Franca. Quando fui eleito, os vereadores da situação de Cristais me questionaram com relação a isto e fizeram uma denúncia no Ministério Público, a qual respondemos com tranquilidade. Antes de me candidatar, fiz esta pesquisa para não incorrer em nenhum tipo de irregularidade. Gosto de atuar dentro da legalidade em tudo o que faço.
Comércio - O senhor recebe os dois salários...
Edvaldo Costa - Isto também é legal. O salário de Cristais reverto para o meu trabalho parlamentar lá. Uso os recursos para informar a população do que faço. Reverto todo o salário para justificar à população a confiança que depositou em mim nas urnas.
Comércio - O senhor vive uma situação inusitada. Em Cristais Paulista, é a pedra no sapato do prefeito Hélio Kondo (PMDB) e exerce forte oposição. Já em Franca, é o encarregado de defender os projetos de Sidnei Rocha. Como é ser oposição em uma cidade e situação em outra?
Edvaldo Costa - Não é difícil. Sou situação em uma cidade onde o prefeito tem 94% de aprovação. Sou oposição em outra cidade, onde o prefeito tem 70% de rejeição. Então, a população guia o meu trabalho. Se a situação fosse diferente, com certeza, eu não estaria atuando na administração do Sidnei. Gosto de defender as coisas em que acredito, que atendem aos interesses da população. Em Cristais, eu faço uma oposição consciente e responsável. Votamos 95% dos projetos do prefeito. Todas as propostas que são de interesse da população, a gente vota favorável. Agora, quando percebo que o projeto vai trazer algum prejuízo, me oponho, discuto e, se necessário, quando as irregularidades não são resolvidas por meio do diálogo, procuro o Ministério Público. Mesmo com o prefeito de Franca, tenho a liberdade de conversar e de expor meu ponto de vista.
Comércio - Quantas denúncias o senhor já fez ao Ministério Público contra o prefeito de Cristais? Hélio Kondo sempre reclama que a oposição sistemática dificulta a administração da cidade.
Edvaldo Costa - Que eu me lembre, são mais de 15 denúncias. Denúncia na Justiça nunca é bom, nem para quem faz nem para quem vai responder. Espero que seja possível dialogar nos próximos dois anos para que não seja preciso recorrer à Justiça para resolver os problemas.
Comércio - O que é mais fácil: ser oposição, como é em Cristais, ou defender os interesses do prefeito como faz em Franca?
Edvaldo Costa - Eu não consigo medir o que é mais fácil ou o que é mais difícil. São coisas completamente diferentes. Franca tem um porte muito maior e, consequentemente, seus problemas também são muito maiores, portanto, o trabalho aqui exige muito mais. Não tenho prazer nenhum em fazer oposição. Gostaria de poder sentar com a administração e discutir os problemas para achar as soluções, não precisar fazer denúncias. A partir do momento em que nos for dada esta possibilidade de dialogar,com certeza, minha vida lá será muito mais fácil. A população entende, acredita e aplaude o trabalho que temos feito em Cristais.
Comércio - Já aconteceu do senhor estar em Franca e a sessão atrasar e ter que sair correndo para participar da reunião na Câmara de Cristais. Alguma vez, o senhor se enganou e confundiu as atribuições que exerce?
Edvaldo Costa - Graças a Deus, não. Nestes últimos dois anos, consegui separar muito as realidades. Mesmo porque, em Cristais não temos discussões tão calorosas como acontece em Franca. Nunca tive nenhum problema, nem mesmo de trocar o nome das cidades.
Comércio - O trabalho que o senhor realiza em Franca nem sempre é bem visto pelos vereadores de oposição, que o acusam de interferir nas votações. Como é sua relação com a oposição local?
Edvaldo Costa - Tenho um relacionamento muito respeitoso com todos eles, nunca tivemos nenhum problema de atrito. É claro que a oposição não vai gostar de ter um assessor do prefeito que esclarece as dúvidas dos vereadores da base dentro do Plenário. Dúvidas, muitas vezes, colocadas pela própria oposição na tentativa de confundir. Meu papel é auxiliar, não interferir.
Comércio - Qual é o vereador de Franca mais difícil de se relacionar?
Edvaldo Costa - Não acredito que tenha algum difícil de se relacionar. Cada um tem seu temperamento e sua forma de agir. É natural que cada um defenda o seu lado. A Câmara sempre soube entender o que é melhor para a cidade. Quando as questões são bem explicadas, não há problemas.
Comércio - O senhor também foi o coordenador das campanhas do PSDB em 23 municípios da região nas últimas eleições. Como foi realizar este trabalho?
Edvaldo Costa - Já estou na coordenação do PSDB há 19 anos e sempre coordenei campanhas. É um trabalho que estou acostumado e não enfrentei dificuldades por conhecer a maioria das pessoas. Foi gratificante pelo resultado que aconteceu. Você vê no jornal: ‘Franca é o celeiro do PSDB no Estado’. Isto nos envaidece, mostra que o trabalho foi bem feito. Mesmo a gente não obtendo êxito para presidente da República, acho que a região deu a resposta.
Comércio - O PSDB perdeu em quatro cidades da região que são administradas pelo partido. Não foi frustrante ver este resultado adverso?
Edvaldo Costa - Temos que avaliar que vencemos em três cidades administradas pelo PT. Cada cidade tem sua peculiaridade. Não dá para ganhar em tudo.
Comércio - O senhor assessorou o candidato a deputado federal Tirso Meirelles, mas um mês depois do começo da campanha, se afastou. Por que desistiu?
Edvaldo Costa - Como coordenador regional do PSDB, tinha a obrigação de apoiar todos os candidatos do meu partido. O Tirso se lançou candidato e, como não tinha estrutura, eu tinha o compromisso de organizar uma estrutura para que a campanha dele pudesse decolar. Montei o comitê, contratei gente e coloquei na rua. Eu não podia ficar exclusivamente na campanha de um candidato. Sou homem de partido e tinha de cuidar das demais candidaturas. Não teve um motivo mais forte. Somos amigos até hoje.
Comércio - O senhor aprovou a postura do Tirso em relação ao acidente em quem ele se envolveu no começo da campanha e que deixou três mortos? Este fato não pesou para que deixasse de assessorá-lo?
Edvaldo Costa - Eu segui até o fim da campanha, apoiando-o dentro do possível. Em relação ao acidente, eu opinei logo no início que ele deveria se manifestar, colocar para a população o seu ponto de vista, mas ele decidiu com os advogados que não. Sempre na minha vida fui favorável a abrir de imediato. Não tem que retardar. Acho que isto, no fundo, atrapalhou muito a campanha dele.
Comércio - Durante 14 anos, o senhor trabalhou como assessor do deputado Roberto Engler (PSDB). Em 2007, a parceria foi encerrada e o senhor passou a integrar a equipe do prefeito Sidnei Rocha (PSDB). O que provocou o rompimento com o deputado?
Edvaldo Costa - Tudo na vida tem um ciclo. Não sai magoado. Quatorze anos são uma vida. Devo muito ao Roberto, aprendi muito com ele. Consegui ampliar o trabalho na região e estreitar o relacionamento com o governo do Estado. Chegou num ponto em que o deputado decidiu mudar a equipe, fazer de forma diferente. Compreendi com tranquilidade. No fundo, esta mudança foi muito benéfica para mim. Vir para a Prefeitura de Franca foi fundamental para que eu pudesse, na prática, exercer o que fiz na pós-graduação, que é o curso de gerente de cidades. Foi muito interessante, me deu uma bagagem muito maior para entender a administração pública, entender o Executivo de uma forma mais ampla. Não vejo como perda o meu desligamento da equipe do Engler. Ganhei estando lá e, depois, estando com o Sidnei Rocha.
Comércio - O senhor está se preparando para se candidatar a prefeito de Cristais em 2012? Administrar a cidade é o seu sonho?
Edvaldo Costa - Tem sonho que a gente fala e tem os que a gente não conta. Acho que tenho de justificar meu mandato de vereador. Tudo o que estou fazendo até agora é para justificar a confiança de um povo que me conhecia pouco, afinal de contas, mudei-me para Cristais em 2001. Quando fui candidato a vereador, posso dizer que 50% da cidade não me conhecia. Várias pessoas acreditaram em mim e me deram o seu voto. Consegui ser eleito. Não costumo falar de coisas que vão acontecer daqui a dois anos. Acho que estou preparado. Se, futuramente, acontecer esta possibilidade, não vou fugir do desafio. Não tenho medo. É importante ressaltar que temos outros bons nomes dentro do partido. Graças a Deus, enquanto outros partidos não têm nenhum, o PSDB tem vários candidatos. Não tenho vaidades nem ambição em relação à Prefeitura. Se tiver que acontecer, será naturalmente, mas tudo o que estou fazendo é para justificar o meu mandato de vereador. Se um dia acontecer de ser prefeito, darei respostas às pessoas que acreditaram em mim.
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