Poesia de nervos expostos


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O poeta Donizete Galvão lançou em agosto passado o seu décimo livro, O homem inacabado, que tem despertado leituras surpreendentes de críticos e público. O número de acessos aos sites que disponibilizam notícias a respeito de sua vida e obra é balizador de sua aceitação entre pessoas de diferentes faixas etárias, todas impactadas por uma poesia que traz em seu âmago um sentimento pessimista em relação às possibilidades de alguma transcendência para o homem que vive no espaço urbano.

Em oposição aos livros anteriores, onde se vislumbrava a luz da esperança pela via de transformação dos elementos e do mundo, neste o que se consegue apreender é tom melancólico ultrapassado por uma sensação de desesperança que se configura em imagens de perdas, pedaços, retalhos, destroços, estilhaços, palavra esta que aparece no poema Um outro homem inacabado, último do volume: “nesta cidade dividida/ cada homem é estilhaço/ entulho jogado na caçamba/ porque há outro na fila/ para ocupar seu espaço.” A cidade dividida é, só por acaso, São Paulo.

Se a cidade se faz impermanente e impiedosa, inóspita e quase inabitável, não menos o está o homem, tema do primeiro poema, sem título e dedicado a Evgen Bavcar. Para quem não sabe, o esloveno Bavcar, que esteve no Brasil em agosto deste ano, é cego desde os 12, por conta de dois acidentes. A cegueria não o impediu de se tornar fotógrafo (filósofo e historiador), o que soa como aguda ironia, senão paradoxo perfeito. Um fotógrafo cego parece mais personagem de ficção. Para subtrair o pasmo aos que custam a acreditar em tal façanha, ele diz: “O mundo não é separado entre cegos e não cegos. A fotografia não é exclusividade de quem pode enxergar. Nós, os cegos, também construimos nossas imagens interiores!”

Sob a dedicatória diz Donizete Galvão: “que o anjo distraído de Klee/ proteja aqueles de corpo incompleto/ sacrificados à máquina/ mutilados pela guerra/ jogados de encontro às rochas.” Tanto a homenagem a Bavcar como a referência a Klee remetem para o universo fragmentado do poeta e seu entorno. Se o anjo pintado pelo artista suíço parece contemplar as ruínas do mundo, Bavcar diz de forma explícita que encontrou “uma forma de exteriorizar suas imagens internas e comunicar-se com os vivos.” Da junção destas duas facetas fala o poeta. De um lado homem e cidade em completo caos e impossibilidade de coesão. De outro, o sentimento de si e do mundo tentando comunicar aos outros percepção sombria sobre a existência.

Depreciando o humano, reafirmando a ideia de alienação do trabalho, denunciando o vazio da existência, Galvão retoma umas vezes o mito de Sísifo: “Preso (o homem) num círculo de repetição/ morre um pouco/ ao fim de cada dia.” Outras vezes abdica de qualquer fé, como acontece naquele que é o mais pessimista dos poemas do livro: “O quarto está deserto./ Uma das janelas está aberta./ O vento suga a cortina branca para fora da casa./ Alguém está por um fio./ Alguém aposta sua última ficha./ Um corpo cairá no negrume da noite.” Em muitos versos posiciona-se como ser errático, descentrado, apartado dos seus. Tanto no mundo da luta cotidiana com a organização para sobreviver, como no mundo da linguagem com as desordens emocionais da poesia.

À primeira vista, parece que O homem inacabado conecta-se com o que costumamos chamar de poesia social. Uma segunda leitura mostra que não. O que prevalece como tema é a inadequação ao mundo, a certeza de que é imposível realizar-se existencialmente. E se por alguns momentos nos parece que a voz que clama a sua condição é a do poeta, um olhar mais atento nos sinalizará que é mais a do homem “condenado ao desterro”.

Se as imagens qualificam a linguagem literária, Donizete Galvão mostra nos seus poemas uma capacidade para as metáforas que singulariza a sua poética. No extraordinário A romã, a vocação plástica alcança momento ímpar, especialmente quando vinculada à temática do livro: “ A romã/ estoura./ Fica/ de boca/ aberta/ -cicatriz risonha- a exibir dentes de rubis.// Depois/ as sementes/deixam/ um sangue/ ralo./ Como se/ a romã/ fora/ ninfa/ deflorada.”

Belo e violento. Assim todo o livro de 50 poemas e um insólito ofertório, no qual o autor relaciona títulos a pessoas queridas que o inspiraram. Gesto bonito e raro, na contramão do desamparo.


A OBRA POÉTICA

Donizete Galvão

Donizete Galvão nasceu em Borda da Mata, sul de Minas, em 1955. Cursou a Faculdade de Administração de Empresas de Santa Rita do Sapucaí e, em São Paulo, fez jornalismo na Casper líbero. Trabalha como jornalista e publicitário. É casado com Ana Tereza Marques e pai de Bruno (1984) e Anna Lívia (1992). Desde 1979 reside em São Paulo.

O escritor estreou na poesia com o livro Azul navalha, em 1988, tendo sido premiado com o APCA de autor revelação e indicado ao Prêmio Jabuti. Seguiram-se As faces do rio (1991), Do silêncio das pedras (1996), A carne e o tempo (1997), Ruminações (1999), Pelo corpo (2002), Mundo mudo (2003), Mania de bicho( 2009) e O sapo apaixonado (2007). Os dois últimos títulos pertencem à literatura infantil, gênero onde o autor ganhou milhares de leitores. Tem participação em antologias e presença constante em revistas literárias. Gravou alguns audios para TV. Participou de muitos programas televisivos como o documentário Versos diversos e Nossa Língua, na Cultura.

Sobre O homem inacabado, diz na orelha do livro o crítico Reynaldo Damazio : “ Há nos poemas de Donizete Galvão um humanismo renitente e torto, que não se ilude e não se rende à facilidade das boas intenções. Inconformado com a mudez funcional das coisas, feita para o entulho, o poeta rumina o sentimento oculto ou perdido da experiência no tempo e lhe dá a medida da dor e da insone perplexidade, em permanente tensão.”

Serviço
Título: O homem inacabado
Autor: Donizete Galvão
Páginas: 80
Preço: R$ 25
Onde encontrar: www.portaleditora.com.br

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