Artesanalmente, o pai preparava meu lanche para o recreio. O homem não sabia, mas as colegas de classe, após comerem a metade do sanduíche, perguntavam-me o segredo. Envaidecido e com fome, respondia-lhes palavras desconexas, esboçando sorriso estúpido.
A classe era pequena, composta por mim e por mais sete mulheres, que alimentavam minhas idéias e calavam minhas palavras de tal modo que, durante meses, vivi silenciosa paixão pela Rosana e os outros seis por Lucimara.
As cercas do amor platônico jamais receberam abalos, e os únicos carinhos evidenciados foram empréstimos de pequenos objetos que nunca retornaram ao meu estojo.
Os passeios pelo pátio eram escassos, pois os alunos das outras séries tinham-me na conta de efeminado, e a minha esqualidez não me permitia qualquer questionamento diante dos grupos de três ou quatro meninos.
Mas foi durante um desses raros passeios que a vida desvendou cenas do meu futuro. Vagarosamente subia a rampa que dava acesso ao pátio quando pedriscos trocados por salas rivais assoviavam próximas aos meus ouvidos. A metade de lanche levada à boca crescia seca, anunciando que as amigas haviam subtraído a minha parte do recheio.
De repente, evasão e silêncio tomaram conta do ambiente, a diretora, postada no topo da rampa, gritou palavras rápidas e enfurecidas, condenando a mim e toda a minha geração pela bagunça anterior.
Os berros afugentaram o pouco de saliva que havia em minha boca. Os olhos rasos d’água, as bochechas estufadas e o braço gaguejando no ar não disseram nada à mulher, que girou o corpo sobre os saltos, esmagando a inocência de menino; dando-me, porém, lembranças para uma crônica.
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