O que, de novo, ou extraordinariamente bombástico, trouxe os documentos vazados pelo WikiLeaks? Nada, a não ser a reafirmação da arrogância americana expressa na maneira como veem o mundo, os seus povos e os seus líderes.
Alguns aspectos podem ser observados e considerados nesses documentos. Eles trazem informações sobre os comentários que diplomatas americanos e estrangeiros fazem entre si e, se foram registrados oficialmente, é porque significavam alguma coisa ou, os responsáveis entendem que, em algum momento, aquele comentário/informação poderá ser interessante para o Estado. É verdade que na vida pública (em qualquer nível) comentários irônicos são muitas vezes feitos. Isso é da natureza humana e quanto mais confiança e contato existe entre os políticos, mais a vontade ficam para trocar confidências e fazer julgamentos.
Outro aspecto a ser considerado é a pouca seriedade que existe em muitas reuniões oficiais e contatos diplomáticos, a ponto de questões menos relevantes serem discutidas e opiniões serem registradas como segredos de Estado. Mas, impressiona o fato de que muitas dessas opiniões refletem, na verdade, leituras que os diplomatas fazem em jornais locais ou, mesmo, de setores de oposição dos países em questão. Dessa forma, não vejo nada de novo em falas do tipo: ‘Hugo Chávez é louco’ ou ‘que o Irã é um estado fascista’, opinião registrada do conselheiro diplomático do presidente francês. Isso, os políticos tucanos não cansam de dizer no congresso brasileiro. Dizer, também, que houve corrupção no Governo Lula é apenas reproduzir o que a imprensa tucana se fartou de dizer durante esses últimos oito anos. Mas, por outro lado, acredito que o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, deva esclarecer porque ele é citado como ‘um líder confiável do Brasil’ e não o Itamaraty, que é considerado como ‘inimigo dos EUA’.
Como brasileiro quero saber quem, efetivamente, defende o Brasil. O que interessa realmente saber é com que finalidade esses documentos foram vazados e porque eles não contêm o pensamento externado pelo mundo diplomático sobre as ações militares (invasões) dos americanos e seus aliados a outros países ou sobre as ações de Israel em relação aos palestinos?
O WikiLeaks não fez absolutamente nada de errado ao divulgar os documentos americanos. Fez o que qualquer grande mídia faria se tivesse tido acesso a eles em primeira mão. A diferença, talvez, seria o fato de que essas grandes mídias fariam um tipo de ‘triagem’ no conteúdo desses documentos, publicando apenas o que estaria de acordo com os seus interesses e com o jogo político que participam. É assim que a estrutura de comunicação e a política funcionam em qualquer lugar.
O aprendizado, ou alerta, que se tira desse episódio é que as relações internacionais são frágeis e a psicologia humana considera coisas que estão aquém dos interesses dos Estados e dos seus povos. Por isso a importância em haver instituições democráticas, fortes e impessoais para que possam zelar pelos interesses dos povos. É necessário, também, que haja um maior controle sobre as informações de Estado lembrando que, por mais seguro que seja um sistema de dados oficiais, é sempre controlado por alguém e esse alguém, pode, a qualquer momento, decidir por fazer um grande estrago.
Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário
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