No momento em que propõe a legalização das drogas “leves”, o governador Sérgio Cabral corre o risco de ver cair por terra todo o prestígio adquirido durante a competente e arriscada retomada do Complexo do Alemão e de outras áreas controladas pelo tráfico no Rio de Janeiro. Pode, inclusive, ser lançado no descrédito da comunidade se o povo pelo menos supor, em sua proposta, algum viés compensatório àqueles que operavam os lucrativos esquemas criminosos. Droga leve não existe. Cada indivíduo tem sua própria reação orgânica, que não conhece barreira legal, moral ou religiosa. Vício não é bom, nem quando as substâncias são as legalizadas. Droga, legal ou não, não passa de droga. Isso, hoje, vale até para antibióticos sem receita médica.
A proposta do governador apenas repete o que outras lideranças políticas e comunitárias têm pregado ao longo dos últimos 30 anos. Soa comodista, já que ficaria mais fácil, num primeiro momento, descriminalizar do que reprimir consumo e o tráfico. Seria o mesmo que proibir a fabricação de automóveis para resolver o problema do trânsito ou, mais popularmente, vender o sofá para resolver a infidelidade conjugal. No entanto, comprometeria o futuro. Em sendo legal, a droga passaria a ser consumida por um número maior de pessoas, como acontece com o álcool e o tabaco. Certamente se avolumariam os problemas de saúde decorrentes do seu uso num País que não consegue atender à altura nem os pacientes de moléstias ditas regulares.
Pelo lado legal e social se implantada a proposta do governador carioca, além da droga também estaria legalizando o traficante, que poderia, até, abrir empresas distribuidoras ou, no mínimo, se inscrever como trabalhador autônomo. Ao invés de ter de correr da polícia, poder contribuir com a previdência social.
Em que pese a existência de dezenas de trabalhos científicos versando sobre o baixo potencial de algumas drogas e até da propriedades medicinais em algumas delas, seria um enorme retrocesso criar uma legislação que permita o consumo como narcótico. Se realmente houverem propriedades curativas não será o traficante ou o dono do botequim o elemento mais indicado para administrar a droga às pessoas. Elas teriam de ser sintetizadas pela indústria farmacêutica e receitada por médicos para casos muito específicos e em dosagens controladíssimas. Jamais poderiam “dar barato” ou estabelecer o descontrole ou a dependência química pois, nesse caso, em vez de promover bem-estar, estariam fazendo mal.
O governador, o presidente da República, prefeitos, parlamentares, policiais, integrantes do Judiciário e as forças da comunidade têm o dever social, moral e até patriótico de combater as drogas. Se não o fizerem, estarão descumprindo a gênese de seus postos.
Melhor será que o governador Sérgio Cabral desconsidere a inconveniente proposta e continue na sua correta linha de combate ao tráfico, ao traficante e às drogas. Suas últimas declarações devem ser apagadas e esquecidas, para o bem geral da nação e dele próprio...
Dirceu Cardoso Gonçalves
Tenente, diretor Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo
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