A cor e o sabor da tristeza


| Tempo de leitura: 3 min

Maria Luiza Salomão
Psicanalista e Psicóloga

Ronan, um dia, falou em tristeza saborosa, e nunca mais esqueci. Emoções provocam sensações físicas. Alegria é uma espécie de bebedeira de champanhe, fugaz, os neurônios levitam como estrelinhas espumantes. A Raiva é como um freezer de fogo que consome a força interior e, explosiva como bomba atômica, faz o maior estrago. Ciúme envenena e nos faz repelir o banquete mais apetitoso. Nem vou falar da Inveja que esvazia a alma do invejoso para fora de si criando um avatar. É possível se tornar irreconhecivelmente desagradável para si mesmo, quando a inveja reina.

A Tristeza é serena, silenciosa, ritma feito batida de relógio de parede. Ecoa, e, enquanto emoção, anda fora de moda. Ninguém pode ser triste, o que é uma injustiça. Estar triste pode ser de uma riqueza! Tristeza é um intervalo suspenso para que o ritmo da vida volte valorizado.

Não procuro a tristeza, mas quando ela vem é bem vinda, como um sal que harmoniza. Ela tem sido confundida com uma prima distante, o sentimento da moda - Depressão. Mas nada tem a ver com ela.

A Tristeza permite sentir, e reconhecer, que a vida é insuficiente, que os amigos nos faltam, até os melhores amigos. Que nossos pais falham, até os melhores pais. Que nossos filhos não são os melhores filhos do mundo, mesmo que eles sejam quase o melhor que se poderia desejar deles.

A Tristeza nos convida à lucidez -não seremos o que gostaríamos de ter sido, a vida passa rápido demais. Se distraímos deixamos passar a juventude e, se bobearmos, não aproveitaremos o Outono, não anteciparemos a beleza do Inverno, a ventura de virar semente quando cansados do corpo exaurido.

A Tristeza é sensação de lenta caminhada, “slow motion” - quadro a quadro para acompanhar o essencial, sem querer mudar nada. Na tristeza descobrimos o “timing”, o quando não adianta agir a esmo. Ela nos breca se precipitamos, lutamos, querendo mudar o mundo (ou a nós mesmos) e sentimos over-dose de angústia, dor, sofrimento, desprazer.

A Tristeza é meio caipira, tímida, tem parecença com uma coceirinha que lá no fundo dá um prazerzinho em continuar coçando. Uma imagem para ela é a do vento revirando folhas de outono, douradas e vermelho-ferrugem, nas ruas silenciosas de uma cidade estrangeira, onde não conhecia ninguém e perambulava, só. Outra imagem é a do Farol esquecido, impessoal, em uma ilhota no meio do Oceano. Na primeira imagem sabemos que o vento carrega as folhas mortas, o Inverno devirá, mas depois...a primavera. Na segunda imagem rebrilha a nobre função do farol: avisa aos navegantes que o navio deve passar ao largo ou será destroçado pelos rochedos empedernidos.

A Tristeza é um sinal para quem dela se torna íntimo, feito amigo a quem não se deve nenhuma explicação - de nada - e com quem, todavia, se repousa, em silêncio de comunhão, com a certeza de que a Tristeza, como a Alegria, passa. Melhor degustar o sabor, pintar a cor do mutante sentimento. Sentir, afinal, é a nossa mais valiosa possessão neste mundo.

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