Flanando na Bienal de Artes


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Mauro Ferreira
Arquiteto, professor e escritor

A Bienal de Artes de São Paulo, já em sua 29ª edição, é a mais importante mostra de artes visuais do país. Instalada no pavilhão que Oscar Niemeyer projetou no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, entre suas paredes já passaram obras de muito impacto, como dos brasileiros Cildo Meireles e Lygia Clark e de estrangeiros como Max Ernst.

Desde os tempos de estudante de arquitetura, visito a Bienal. Minha milhagem naquele prédio deve ter dado uma volta ao planeta, pois geralmente cada visita não dura menos que três, quatro horas de andança generalizada e muito sobe-e-desce. Quando peço um banco para sentar, com os bofes de fora, sempre lembro a experiência existencial vivida muitos anos atrás pelo Gerson, bem-humorado artista francano que teve a ideia de levar a pequenina filha Loredana para desfrutar da arte da Bienal, visita que acabou obviamente com a menina chorando de evidente cansaço depois de horas de “para, olha e discute” cada obra.

Embora haja muita bobagem nas Bienais, sempre encontramos obras inovadoras, que nos fazem enxergar as coisas de uma outra maneira. Na edição deste ano, depois de esperar uma fila gigantesca para entrar, decorrente da rígida segurança por causa da ameaça de pichação das obras, duas coisas me divertiram muito. Não foram os urubus, que já tinham sido retirados de uma jaula em que ficavam numa das obras expostas, depois de intensa e extravagante polêmica na imprensa.

Primeiro, foi numa obra de uma artista europeia. Eu estava vendo num estande fechado a vídeo-arte da moça, umas estranhas fotos da zona rural, quando deu um “pau” no projetor e apareceu o protetor de tela do MacIntosh, computador muito utilizado para trabalhos gráficos. Fiquei um ou dois minutos vendo se consertava e já ia me retirando quando entrou uma jovem estudante com sua máquina digital a postos. Ela começou a tirar várias, muitas fotos, do protetor de tela do computador. Deve ter achado genial a “obra”. Saí de fininho para não dar vexame e rir na frente dela.

Logo, fui capturado por outra instalação artística, um filme em preto e branco de um sujeito junto aos pilotis do antigo prédio do MEC, obra pioneira da arquitetura modernista brasileira, no centro do Rio de Janeiro. Ele distribuiu doze extintores de incêndio num círculo perfeito. Como há muitas piadas com extintores e arte moderna, aguardei para ver o que aconteceria. O autor conseguiu arregimentar doze passantes na rua para empunhar os extintores e os ensinou como utilizar. Dito isto, cada um apontou o extintor para a cara do oposto e todo mundo ligou ao mesmo tempo, uma nuvem gigantesca de pó químico se elevou, saiu gente cuspindo, tossindo, rindo, com a cara esbranquiçada. E aparecia a palavra fim. A intervenção artística estava concluída.

Quase foi necessário a segurança entrar em ação para estancar o acesso de riso que eu tive na Bienal.

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