Caio Porfirio
Escritor, crítico literário e secretário administrativo da União Brasileira de Escritores
- Cuidado com a lama. Desvie. Isso. Mas me diga: eu tenho ou não razão? Não? Você é cínica mesmo. Cínica, sim. Eu que sou o culpado? Cuidado aí com os espinhos. A vereda é estreita. Não sei porque fui me meter com você. O quê? Você não significa nada para mim? Ouviu de quem? Diga. Tudo mentira. Capaz que ande espalhando que me deu aquele dinheiro. Não? Sei lá. Olhe o riacho. Pule. Estamos chegando. Quer voltar? Estamos perto, já disse. O que é que você está dizendo? Mentira, mentira e mentira. Dei um beijo nela de pura amizade. E vou lhe pedir mais uma vez: é melhor tirar essa criança. Não quer, já sei. E vou ficar rouco de repetir: prove que é meu? Êh, afaste. Não levante a mão para mim. Leva uns tapas. O quê? Repita. Você é cínica mesmo. Sei lá se você se meteu com outro e está jogando a culpa em mim. Chore, chore, pode chorar à vontade. Você é uma artista. O quê? Não vamos voltar não. Está perto. E me solta. Se feriu na pedra porque quis. Bem feito. Para que lhe mostrar o poço? Por nada, ora. Pegamos a vereda e me lembrei dele. É ali. Pronto. Chegamos. E não grita. Me solta. Me larga. Toma, toma. E vai com Deus.
Examinou os arranhões nos braços e os rasgões na camisa. Suspirou fundo e olhou longamente a escuridão do poço. Correu a vista pela mata em torno, demorou-se ouvindo o trinar de pássaros. Voltou a olhar o poço escuro e silencioso. Tornou a examinar os arranhões de unhas nos braços e os rasgões na camisa. Ajeitou-se o melhor que pôde e, sozinho, assoviando uma velha música, tomou o caminho de volta.
Saiu da vereda, andou rápido o trecho de estrada, entrou no quarto, na entrada da cidade, trancou-se, deitou-se. Olhos nas telhas, flutuava, sem pensar nada.
Acordou com pancadas fortes na porta. Atordoado, abriu-a. A voz feminina informava nervosa:
- Um mateiro encontrou a tua companheira num poço, quase morta. Está no hospital. Como foi parar lá?
Ele, estático, exibindo os rasgões na camisa e os arranhões sofridos, balbuciou:
- O quê?
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