Todo país em desenvolvimento, com uma sociedade minimamente educada e bem informada, almeja possuir estrutura produtiva avançada e com alto valor tecnológico agregado. Nós, brasileiros, aspiramos (considerando que nossa sociedade dá os primeiros passos para o seu desenvolvimento cultural) ver a indústria brasileira pesquisando, criando e produzindo tecnologia e o futuro.
Porém, o dia a dia da economia tem uma dinâmica diferente das nossas românticas aspirações e, por exemplo, em Franca ainda produziremos sapatos por algum tempo até que os jovens, com aquisições educacionais maiores e melhores, recusem o chão de fábrica (acreditem, isso acontecerá, é a evolução) ou, quem sabe, até que a produção de sapatos tenha seu sistema produtivo radicalmente transformado e fazer sapatos, passe a ser uma ação de alta tecnologia. Chegaremos lá mas, enquanto essas mudanças não acontecem, temos a real possibilidade de concretizarmos outra antiga aspiração romântica brasileira, a de tornar o Brasil, Celeiro do Mundo.
Segundo a ONU, em 2025 o mundo terá mais de 8 bilhões de pessoas e 60% dessa população estarão nas cidades. Essa migração para as cidades provoca mudanças nos hábitos alimentares aumentando a demanda por commodities agrícolas (grãos) o que nos faz pensar quem produzirá comida para todas essas pessoas. Existe, evidentemente, uma capacidade ainda enorme de aumentar a produção existente em função de pesquisas tecnológicas que melhoram a produtividade e, o Brasil tem excelência nesse recurso. Mas, mesmo com o avanço tecnológico, existem determinantes que não são criadas em laboratórios e não são resultados de pesquisas. Para aumentar a produção de grãos e garantir comida para todos, mais do que tecnologia, precisa-se de terra produtiva e água doce. O Brasil tem, e tem também uma vocação natural para o agronegócio, em que pese nossas deficiências. Temos capacidade de produzir comida e somos tecnologicamente auto-suficientes na produção de biocombustíveis e ricos em recursos minerais.
O que falta então? Falta uma política agrícola que pense seriamente essa realidade mundial e essa possibilidade nacional; que não se faça somente atendendo reclamações dos produtores que, via de regra, somente pedem subsídios e financiamentos baratos; que resolva o conflito existente entre meio ambiente e agricultura. É certo que a agricultura no Brasil e no mundo foi desenvolvida devastando florestas e reservas naturais, mas essa prática histórica não é mais necessária e nem admissível. Afinal, o Brasil tem impressionantes 92,8 milhões de hectares disponíveis e agricultáveis e mais 60 milhões de hectares ocupados por pastagens degradadas e que podem ser transformados para a produção agrícola. Esses números impressionam, considerando que a nossa atual produção sai de 45,6 milhões de hectares.
Precisamos de uma política agrícola que seja contemplada por investimentos na indústria envolvida no agronegócio (tratores, equipamentos, fertilizantes etc), nas pesquisas (melhoramentos de técnicas e de sementes de alta produtividade), na infra-estrutura e logística de transporte e no posicionamento firme do País no combate ao protecionismo e aos subsídios estrangeiros.
Cassiano Pimentel
Agente de exportação e professor universitário
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