As forças policiais - estaduais e federais - reunidas no Rio de Janeiro ganharam as manchetes de todo o mundo ao retomarem o Complexo do Alemão, base principal do narcotráfico naquela capital.
Com equipamentos, logística, comando e determinação, cumpriram a missão, aparentemente com baixo número de vitimas e de forma eficiente.
Desbarataram um esquema que vigorava há mais de três décadas e, a cada dia, se tornava mais ousado e perigoso, pois confrontava o poder constituído.
Também demonstraram que o poder de fogo dos criminosos, embora elevado e inaceitável, não é maior do que os das tropas e instituições oficiais.
Concluídas as operações de assalto ao território e libertação de seus moradores, começou de imediato o paciente e penoso trabalho de pente fino para desentranhar os resquícios da ocupação irregular e criminosa. E, mais que esse, deve ser colocada imediatamente em prática a operação de socorro à população.
O Estado tem de se fazer presente para evitar que, como no passado, o crime organizado volte a impor sua vontade no lugar.
As autoridades têm motivos para festejar mas não podem se esquecer que a tarefa apenas começou e que existem, no próprio Rio e em dezenas de cidades brasileiras, outros bairros e regiões igualmente tomados por traficantes onde criminosos exercem ilegalmente a autoridade.
Todas as cidades brasileiras, até as pequenas, têm pontos críticos que um dia poderão se tornar insustentáveis se as autoridades não cuidarem de resolver o problema enquanto ele é administrável.
É necessário libertá-las também, mesmo que isso não tenha o mesmo “glamour” da operação carioca.
A apreensão de mais de 40 toneladas de drogas só no “Alemão” demonstra a extensão do problema. Além dos traficantes, há na cidade um enorme contingente de consumidores. Um não vive sem o outro. E ainda mais: como o Brasil não produz a droga, também há um grande esquema que a transporta dos países produtores Colômbia, Bolívia, Peru, Paraguai até os centros consumidores.
Essa mercadoria circula por pelo menos 1500 quilômetros em território brasileiro até chegar ao Rio, e o mesmo ocorre com as armas contrabandeadas, em boa parte, vindas do Paraguai.
O emprego da Polícia Federal e das tropas do Exército, Marinha e Aeronáutica revelou-se fundamental para o sucesso no enfrentamento no morro.
Com certeza, poderá também determinar o sucesso das operações de combate ao caminho do narcotráfico. O Brasil é extremamente negligente na vigilância das fronteiras e no controle das vias internas.
Se já possuísse um trabalho eficiente - não sazonal ou fruto do acaso ou da sorte - para a apreensão de drogas, contrabando e outras cargas ilegais, jamais se desenvolveriam os esquemas criminosos hoje vigentes no Rio e em outros grandes centros. Sem mercadoria não há mercado.
Espera-se que o presidente Lula e sua equipe, nesse mês que ainda resta de governo, direcionem os esforços para o desmonte das rotas que levam drogas e armas aos mercados consumidores brasileiros.
E que Dilma Rousseff e aqueles que a auxiliarão no próximo mandato sejam capazes de desenvolver e estimular políticas públicas capazes de socorrer as populações hoje subjugadas e carentes do narcotráfico, devolvendo-lhe a cidadania e o orgulho de viver em sociedade. Só assim e que o “Tropa de Elite 3”, como está sendo chamada a operação no Complexo do Alemão, poderá ter um final feliz...
Dirceu Cardoso Gonçalves
Tenente, diretor da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo
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