A guerra acaba por se instalar quando há choque de ideias envolvendo interesses, seja nos países, nas sociedades, nas religiões, nas famílias ou grupos que pretendem o poder.
Em muitos casos a desídia pode ser a célula principal do estabelecimento da guerra. Protela-se por anos seguidos uma ação imposta ao poder constituído na forma legal contra um pretenso e famélico desejo de mando e lucro ilegal e nocivo à sociedade. Assim tem sido a norma atual quando se inclui reconhecidas fichas sujas no poder. Aprendi na infância rural sem horizontes: “Não há mal que sempre dure ou bem que nunca se acabe”.
O ilustre professor de Direito, Goffredo Telles Júnior, em sua “Carta aos Brasileiros” (1977), nas Arcadas de São Francisco, como a prever o futuro, já afirmava com sabença de mestre: “Distinguimos entre o legal e o legítimo. Toda lei é legal, obviamente. Mas nem toda lei é legítima. Sustentamos que só é legítima a lei provinda de fonte legítima”.
Temos argumentado que o legal nem sempre é ético, ou honesto, cabendo uma pergunta: que legitimidade pode ostentar a truculência dos chefes do narcotráfico nas favelas do Rio de Janeiro? Invariavelmente exercita seu poder e força contra a população sufocada pelo medo das armas modernas que possuem as vistas de autoridades no País em que referidos instrumentos são proibidos.
Por mais de três décadas a leniência de governos e seus agentes de segurança permitiram aos grupos do narcotráfico, alto crescimento e evolução tática aliada à facilidade em aquisição de farto material bélico. Tal aparelhamento lhes permite autonomia para auferir grandes lucros, viciar e corromper adolescentes e calar habitantes nas regiões que dominam. Não lhes importa a grande perda de vidas humanas de envolvidos ou inocentes. Estão conscientes de seu poder paralelo ao peitar a força da lei dormida ao postergar por anos uma ação sabidamente necessária.
Finalmente a guerra se instalou e nada justificaria retroceder no expurgo da bandidagem, hoje por força de sobrevivência, reconhecida e aprovada pela gente trabalhadora da Vila Cruzeiro, Alemão, Rocinha e Santa Marta.
Espanta-me um fato muito em uso dos novos tempos: bandidos de toda espécie, ladrões, narcotraficantes, mãos sujas com recursos públicos, presos condenados tentem negociar com a justiça ou polícia, afrouxamento de penas para seus crimes.
Que a guerra que se trava no Rio possa ter efeito de alerta em Franca, onde grassa o consumo e tráfico das drogas enlutando as famílias.
Também não é exagero pedir à polícia, ao judiciário, ao poder executivo, vistas e providências para coibir ocorrências com violência no trânsito criminoso que praticamos. Ainda podem ser contidos. Quem sabe mais adiante, não mais.
Garcia Netto
Jornalista
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