Por Mirt0 Felipin: poeta, escritor e observador.
Franca, finalmente. Setembro de setenta e quatro. Literalmente a bordo de um Cometa, pousamos. Manhã fria, chuva intermitente. Carpindo mudamente as plantadas mágoas de frustrações tantas e vigiado pelos plácidos olhares das centenas de rosas fincadas na praça, desço no ponto final.
Chegava eu como um soldado sem batalhão, sem quartel e realmente sem rumo, com a única certeza de que a trincheira familiar me abrigaria. Vim provisoriamente, e, provisoriamente, estou até hoje. Última opção, resisti até mais não poder, e acabei vindo, por não ter mais aonde ir. Conhecia a cidade e a achava provinciana demais, fútil demais, complexada demais em relação à sua irmã mais nova e mais próspera, não menos provinciana, oitenta quilômetros à frente. Mas buscava refazer as forças e continuar meu caminho. Como já dito, até hoje estou aqui, sabe-se lá por quais desígnios.
Aqui perdi meu pai, e ganhei uma nova mãe, que arrumou forças na ausência do parceiro, para se multiplicar, cuidando dos filhos, inclusive eu, dos netos, das contas..., e, na sua tosca formação, guiar-se pela natural e infalível intuição. Ganhei também meus irmãos, que, apesar de anos de criação juntos, eu pouco conhecia e pouco era conhecido por eles. Ganhei tias impagáveis e confusões familiares incontáveis, como toda família normal (?).
Vi, sem entender, a demolição do Hotel Francano, logo nos primeiros meses na cidade, vi as praças centrais serem destruídas e reconstruídas ao capricho de cada prefeito, vi a igreja matriz mudar de cor, ser ameaçada pelos pombos, a santa do nicho principal ser trocada e vi também algumas edificações insubstituíveis serem demolidas e substituídas por modernos e funcionais (?) prédios inadiáveis.
Vieram, contudo, conquistas. Na inevitável luta para me colocar na vida profissional, estudantil e social, conheci pessoas necessárias demais. Algumas já se foram e no meu time cada uniforme continuará vazio. A maioria permanece firme, tolerando minhas idiossincrasias, seja ao redor das mesas regadas à cerveja, seja nos leitos delirantes ou nos simples e (im)pagáveis cafés temáticos no Café do Bigode.
Assim, impossível esquecer o Bilheirus, o Luís Gonçalves, o Luizinho Matarazo, o eterno otimista Leozinho e outros que se foram e é melhor deixarmos na paz do passado.
Vi também o auge da vida noturna da praça Barão, quando ainda havia tráfego de veículos. Um curioso footing, ou seria roading, de moços com os carros dos pais, desfilando para as enfeitadas donzelas, nem tão donzelas assim, frente aos finados points Pagé, Picadili, Beco, ao sobrevivente Barão e, rua abaixo, o Bar dos Artistas, evitado olimpicamente pelos narizes empinados das moças de bem. Do lado de cá, sem tanto charme, o Francafé, refúgio seguro, de dia o Tuninho Maravilha no comando e de noite o saudoso Isprica, último reduto dos profissionais noturnos e dos perdidos na vida marginal. A maioria desses pontos foram transformada em lojas emergentes, e a praça, já sem as estreitas ruas, ganhou reformas e calçadão e perdeu o charme diuturno.
Tantas foram as mudanças nas duas praças, que, hoje, quando vejo o “Palacete da Baroneza”, o próprio prédio da antiga Cometa e outros valentes resistentes, mesmo maquiados, é verdade, mas sólidos ainda ante o surto imobiliário, sinto haver alguma esperança nessa cidade tão sem memória.
Na geléia humana geral, que se formava na região central, transitavam personagens impagáveis e, por vezes, desagradáveis. Assim, os desequilibrados frequentadores do dia, se divertiam sem pudor algum, atazanando o imortal Pelotão, a Luzia, Maria Capotinha e outros lírios pirados menos cotados, mas não menos incomodados pelos normais (?) desocupados.
Vi também o brilho inconteste de Paulinho Chinelo, cintilando entre amigas, brincando, cantando, dançando e cultuando sua eterna diva Emilinha Borba rua afora.
Concomitantemente, nos salões de bem, brilhavam as elegantes e personalidades, eleitas sabe-se lá por quais critérios, mas indispensáveis à sobrevivência das colunas sociais.
Vivia-se o auge da invasão norte americana, em busca dos calçados subsidiados pelo ditador de plantão. Trombava-se com norte americanos e adolescentes de todas as nacionalidades, originários de inesgotáveis intercâmbios e combinações multinacionais. Era o milagre econômico, o crescimento do bolo. Aquele que depois desandou. Tornou-se muito chique sentar com algum alienígena nos bares da aldeia e falar em voz alta o idioma inglês.
Vi, pouco mais adiante, impérios calçadistas, antes inexpugnáveis, depois, sem o sagrado incentivo oficial e colocados dentro do caldeirão comum do despreparo competitivo, incompetência profissional, impostos irracionais e apátridas, bancos famintos, temperados por incompreensíveis e, mais que inúteis, perversos planos econômicos, que se sucediam como gafanhotos, exterminando empregos, sonhos e empreendimentos, serem nocauteados.
Franca, se, em mim, cancelou sonhos e semeou frustrações, deu-me, em troca, presentes impagáveis, como a amizade dos Bolelas, Xavieres, Martins, Marques, Tosis, Donadelis, a mestra Regina, e outros vários, como o imortal time do Campo Belo ou Sem Nome, no qual, mais que jogar durante treze anos, aglutinei-me a um sólido grupo de diferentes matizes, e objetivo único: lealdade, dentro e fora do campo (se um apanha, apanham todos, se um bate, os outros separam, ou quase isso).
Em pleno domínio da modernidade(?), não se arrisque a cruzar a Praça Nossa Senhora Conceição depois das tantas à noite. Convivendo com o reino dos computadores, cibernética desenfreada, chips, shoppings, top tens e uma parafernália incontável de outros itens, não me oponho aos novos tempos, mesmo porque não sou saudosista. Gosto do passado, lá no passado. Não dirijo minha vida olhando pelo retrovisor todo o tempo, o desastre seria óbvio.
Mas ontem passei frente ao prédio da A.E.C., referência de encontros e desencontros, namoros e tábuas memoráveis, porres corneanos e bailes inesquecíveis. Pois é, também está sendo beneficiado pelo progresso. Não pensem que será transformado em um centro de cultura, nada disso, Franca não faz questão desse tipo de projeto antiquado. Está sendo transformado em mais um camelódromo legal. Claro, tem de ser funcional, dane-se o perfil original.
Do jeito que Franca tem sido capaz de destruir seus marcos, suas referências, riquezas arquitetônicas e toda a história nativa, com inexplicáveis justificativas, ausência de poder público atuante e belos discursos ao cortar fitas, espero que um dia esta Cidade não seja apenas um quadro na parede, doendo tanto quanto o quadro do gauche Carlos.
E, agora, espero morrer por aqui. Tomei água da Careta, quando ainda era possível.
... chega ...
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.