Maria Luiza Salomão
Psicanalista e Psicóloga
Nos anos 60, Clint Eastwood encarna o cowboy solitário, de poucas palavras, grisalho, rápido no gatilho, o rei dos “filmes de amor”, segundo o meu pai. Lendário, misterioso, questionava as convenções sociais, mostrava em gestos e atitudes o que pensava, não se explicava em palavras. Pode-se dizer que, como diretor e produtor, mantém esta persona. Como músico, se exprime em imagens e sons. Em fundos sentimentos, como um poeta.
Sutil nas ideias, sintético e preciso, consegue mostrar, em vários gêneros cinematográficos, o “american way of life”, mas em tal forma artística que permite o universal humano emergir em suas películas.
No filme “As Pontes de Madison”, de 1995, acerta o tom intimista ao escolher quem iria vivenciar, na telona, um romance de quatro dias: Francesca, de origem italiana, casada com um fazendeiro americano, mãe de dois filhos e Robert Kincaid, um fotógrafo, à procura de pontes cobertas antigas, reportagem para a revista National Geographic.
Ponte é símbolo mítico, de transformação, de busca de transcendência, de passagem de um reino terrestre, material, a outro reino, espiritual.
A obsolescência das pontes cobertas que Robert Kincaid foi fotografar para a revista, já em extinção nos idos de 1965, sugere que esta forma de romance também estaria em extinção, história de amor em um estilo fora de moda. Um cenário, na Arte, é psicológico, dizia G.Bachelard.
Francesca, vivida por Meryl Streep, é uma dona de casa entediada, com rica vida interior, que, corajosamente, assume a responsabilidade pelos elos construídos com o pai de seus filhos (e com a comunidade em que vive) e também, como mulher, no erotismo vivido com Robert (Clint Eastwood). Não se dispõe a abandonar a sua vida, mãe/esposa de 15 anos, pelo intensamente belo romance com Robert (em 4 dias de encantamento).
O roteiro foi condensado, na medida, para esta dupla de atores brilharem na tela. C. Eastwood (então com reais 65 anos) e Meryl S. (com seus 45 anos) encarnam a “química” exata para viver o que o autor Robert J. Waller (escritor, músico, também fotógrafo), criou no romance homônimo, em 1992 (12 milhões de pessoas já leram a obra, traduzida para 36 línguas).
Francesca, ao dizer para Robert -”somos o que escolhemos” mostra a tessitura de sua “vida em detalhes”, da qual não quer, não pode, não consegue abdicar. Hesita - autoconsciente de sua vida doméstica tediosa, porém real, mas se reconhece comprometida. Intui que se tornaria uma mulher muito diferente da que viveu aqueles 4 tórridos dias, no espetacular e transcendente romance com o “out-sider” Robert. Ou seja, ela se conhece (e reconhece Robert na sua alteridade, o estrangeiro) o suficiente para não tentar substituir uma vida por outra.
Francesca não quer expor os filhos à moralidade da pequena cidade onde mora “a mulher que fugiu com o fotógrafo hippie”. Não parece escolha moral e sim escolha pela “vida de detalhes”, que também a representa, o amor (de outro tipo) pelo marido e o cuidado com os filhos. Maduro drama adulto, que não banaliza a complexidade das emoções humanas profundas.
Francesca se revela aos filhos em uma carta, depois de morta, e os surpreende ao fazê-los conhecer uma face materna da qual se mantiveram ignorantes.
Há poesia na difícil e mágica ponte entre um homem e uma mulher. Robert é um protótipo masculino: aos 52 anos, descobre o que procurava, ao vagar pelo mundo, em busca de aventuras e liberdade – um Amor pleno de Mistério e Magia, como o que vive com Francesca. Francesca, ao redor dos 40, em meio a fantasias prototípicas femininas, experimenta uma dimensão feminina real, despertada por Robert, que também a representa. Mas reconhece que não continuaria sendo esta mulher-para-Robert, se o seguisse no seu caminho, abandonando outras dimensões de si mesma.
Os dois têm experiência, suficiente, de si mesmos. No rico encontro, engenham pontes, reconhecem as margens da travessia - o que abandonam em uma margem, assim como o Mistério que os espera da outra margem.
Nos 2 anos do “Cinema & Psicanálise”, temos trabalhado na construção de “pontes entre conhecimentos”, Arte e Psicanálise.
Engenhar pontes afetivas que permitam travessias é uma tarefa humana, especificamente a do analista. Esperamos ser prazerosa e íntima nossa travessia, na véspera do aniversário da Franca.
BIOGRAFIA
Clint Eastwood
Eleito duas vezes o ator favorito dos EUA, é o único da história do cinema a estrelar em filmes de “grande sucesso” por 5 décadas consecutivas. Fora Woody Allen nenhum outro dirigiu mais do que ele, que cumpre o orçamento e geralmente termina o filme antes do previsto. Filmou As Pontes de Madison em 35 dias. Compôs a marcante música-tema do filme, Doe Eyes (tradução: “olhos de corça”) em parceria com Lennie Niehaus. O roteiro é de Richard LaGravenese.
Ganha várias vezes o Oscar, como Diretor, Melhor Filme e Melhor Ator. Recebe o Memorial Irving G. Thalberg - reconhecimento da longa carreira no cinema, em 1995. Em 2007, premiado como músico de honra no Berklee College of Music, comenta: “uma das maiores honras que recebi”.
Com o diretor Sergio Leoni, anos 60, galgou a fama, nos filmes de “faroeste spaghetti”, na caracterização mítica do homem solitário, de moral ambígua, encarnando o que morre e se redime. Talvez a palavra exata seria - o que se regenera.
Com esta ideia em mente, regeneração, vale a pena rever os filmes recentes, dirigidos e produzidos por Eastwood. Richard Schickel, autor do livro Eastwood: uma biografia, escreve que Clint mostra, em filmes, o ônus pago pela arrogância sexual, autodestrutividade, machismo, narcisismo, excesso de orgulho, estupidez e perversidade.
Serviço
Título: As Pontes de Madison
Direção: Clint Eastwood
Duração: 135 min
Ano: 1995
Gênero: Romance
Estúdio: Warner Bros. / Amblin Entertainment / Malpaso Productions
Onde: Hoje, às 15 horas no Centro Médico de Franca
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